Simone Coste

Simone Coste, designer de mobiliário e joalheira das mais descoladas, em entrevista exclusiva para Hardecor, conta porque coleciona sucessos. Depois de se formar em economia pela UBF, Simone rumou para Nova York, onde morou por quatro anos. Fez moda na Parsons, voltou para o Brasil e enveredou  pela joalheria, mesmo sem nunca ter feito um curso na área. “Foi intuitivo. Aprendi muito sobre metais e soldas, e hoje uso esse conhecimento no desenho de mobiliário. Sou na verdade  fashion designer, mas quando acabei os cursos voltados para a área, não queria mais nem ouvir falar em moda. Foi uma coisa muito rápida na minha vida. Comecei  na joalheria e adorei. Foram 15 anos na joalheria, até a Barneys, que comercializa as minhas peças, ser comprada por esse novo grupo. Eles começaram a fazer uma coisa muito comercial, e apesar de a loja ainda ser muito conceitual, começaram a comprar só o básico. Eu, desestimulada, me voltei para o mobiliário, e estou amando…é meu novo desafio, aliás no Brasil esse desafio é enorme”, conta Simone entusiasmada. A busca pela perfeição, pelo acabamento primoroso e pelos seus próprios conceitos e verdades é o que move essa designer criativa, que vive e trabalha em São Paulo.

Simone Coste. 

Hardecor: Como você descobriu a sua vocação de designer?

Simone Coste: Eu gosto de desenhar desde criança. Fiz cursos de escultura e xilogravura ainda na infância. Eu detestava estudar, gostava mesmo era de ficar desenhando, trabalhando essa parte artística, então desde pequena minha vocação é totalmente voltada para esse lado da arte, da criação.

H: Quem são os arquitetos ou designers mais importantes na sua formação?

SC: São vários. Tadao Ando, Richard Meier, Oscar Niemeyer, são tantos, é uma infinidade, não tem assim especificamente uma linha que eu siga, minha inspiração não vem de coisas do lado de fora, minha criação vem toda de dentro de mim mesma, de coisas que eu vi e vivi, então quando eu estou desenhando, não uso referências, não faço um border.  É completamente livre disso, eu pego um papel e começo a desenhar  e o desenho aparece. Eu não sigo uma linha.

H: E  acontece, por exemplo, quando você tem uma experiência diferente, surgir uma inspiração?

SC: Sim, algumas coisas me inspiram. Por exemplo, eu vi um edifício todo em quadrados, e aquilo ficou na minha cabeça. E criei uma mesa com vários volumes. Mas não é exatamente aquilo. É um start para um novo projeto.

H: O que prende o seu olhar?

SC: Tudo o que é bonito, belo, tudo que é bem acabado. Sou muito ligada na natureza, sou bem fora desse mundo, eu vou em cima de acabamento, de coisas bem feitas e isso me prende mais do que o desenho. O desenho só não é, é preciso finalizar de uma forma perfeita.

H: Se você tivesse que escolher apenas uma peça de design para ter para sempre, qual seria essa?

SC: Uma escultura de Brancusi seria  ótimo, ou um mobile do Alexander Calder  seria maravilhoso. (risos) O Calder é lindo, né? Aquele movimento todo.

H: Como você vê o design no Brasil hoje?

SC:  Acho que estamos caminhando para uma coisa bem bacana, o brasileiro tem muita criatividade, só que ainda não parou para entender que coisas inéditas levam tempo, a criação acontece quando ela realmente adquire uma identidade e isso vem devagar, ela precisa ser trabalhada. A indústria nacional não está preparada para isso. Em acabamento ainda estamos caminhando, nosso produto é caro quando comparado aos europeus, por exemplo. O designer não precisa criar dez cadeiras em um ano, ele precisa ir pra dentro da fábrica fazer com que a fábrica entenda qual o conceito e como tem que ser finalizada a peça. Isso é o trabalho do designer. Foi isso que aconteceu na Itália, poderia acontecer aqui também. As indústrias precisam se preparar para o crescimento, elas precisam investir em tecnologia. Entendo que também é tudo muito caro, quando comparamos um sofá italiano com um brasileiro, por exemplo. Por mais que o designer tente dar o acabamento mais primoroso possível, não temos condições técnicas para isso, e fica muito difícil, mas estamos evoluindo, e a consciência no sentido de finalização do produto deve ser maior, muito maior. Eu levo um ano para fazer uma peça. Acabei de desenhar uma mesa e o prazo para que ela esteja pronta é de dez meses a um ano, não tem como ser diferente, porque eu vou, faço e olho, e melhoro, e deixo a peça exposta e vou olhando, sentindo, e vendo o que pode melhorar.

H: Você faz o acompanhamento de suas peças?

SC: Faço. Para o sofá que está na Micasa levei um ano dentro da fábrica, mostrando, melhorando o produto até ficar perfeito. Fiz quatro anos de moda em Nova York, e isso me deu uma noção muito grande de acabamento, de finalização, viro o sofá de cabeça para baixo e falo: “Porque esses grampos estão um para lá e outro pra cá? E não são todos retinhos?” E eles: “Ah, é porque está por baixo”. E eu pedia para melhorar. Então eles foram melhorando, e hoje o sofá é maravilhoso, uma peça diferenciada, teve uma super aceitação e todos saem ganhando, cliente, loja e fábrica. A partir desta experiência eles também melhoraram outras peças. Acho importante o papel do designer dentro da fábrica, sair da prancheta e participar de todo o processo, por que naturalmente o olhar dele é muitíssimo diferente do artesão que está na produção. O designer tem que tentar mudar inclusive o olhar do dono da fábrica, para que este entenda a importância do artesão e invista nele, além, é claro do rígido controle de qualidade. No Rio Grande do Sul tem uma indústria parceira que é muito bacana, a Componente, que faz toda minha linha de metacrilato. Eles tem uma visão totalmente européia, já tem um DNA que entende a importância de certos conceitos. Mas eu não perco a esperança, estou aqui, desbravando o sertão de canivetinho.

H: Quais outros assuntos te interessam, Simone?

SC: Hoje me interessa a arte, a filosofia, a poesia. E é dai que eu tiro minha maior inspiração, que não vem do que já foi feito, não vem de trabalhos de arquitetos e designers, nem de coisas antigas, porque eu não gosto de ficar fazendo releituras, eu quero criar uma coisa nova. Uma coisa de 2014, valorizar o agora, tenho um canal aberto com o universo, e a inspiração vem de lá.

H: No Brasil fazer  mobiliário é mais difícil do que a joalheria?

SC: Um milhão de vezes. Joalheria é uma peça pequena, temos expertise de ourivesaria no Brasil, em Minas, no Sul, tem muita gente que já faz isso bem feito. No mobiliário, precisamos desta mão de obra especializada para trabalhar em larga escala. E não temos, estamos formando.

H: Você acha que o designer no Brasil, de uma maneira geral, acaba abrindo mão do controle de qualidade em função do volume?

SC: Eu acho que isso acontece sim, a qualidade fica comprometida pela vontade do produto estar no mercado e vender. Então, sim. Infelizmente sim.

H: E você acha que os designers de uma maneira geral acabam se repetindo em função do comercial?

SC: Raros são os designers que tem identidade forte, própria. A maioria faz algo meio copiado dos designers escandinavos. Fica aquela coisa meio homenagens, referências e tal.

H: O designer nacional tem uma identidade particular?

SC: Eu acho que a gente trabalha com o material que tem. Você trabalha com pedra porque é a nossa matéria prima, tem em abundância aqui, porque não usar? E acaba ficando a cara do Brasil.

H: Qual a sua impressão sobre os Irmãos Campana?

SC: Eu gosto deles, gosto bastante. A Edra (empresa italiana) conseguiu realizar o sonho deles. E aqui no Brasil eles fazem peças em edição limitada com artesãos.

H: O que você diria para os designers que estão começando?

SC: designer tem que se preocupar com o produto até ele ser finalizado. Se for bom, a coisa acontece. 

H: Para encerrar, eu queria que você, por favor, desse uma dica para os leitores de Hardecor.

SC: Uma dica? Inhotim, um lugar bem bacana no Brasil, um lugar que todos os brasileiros deveriam prestigiar e passar um dia.

H: Simone, obrigada.

ONDE ENCONTRAR PRODUTOS COM ASSINATURA SIMONE COSTE: 

barneys.com; micasa.com.br; avenue-road.com

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