Pelle, por Maraí Valente

Maraí Valente é arquiteta urbanista e já trabalhou com vários feras da área. O desenvolvimento da linha de tapetes em couro pintado à mão com grafismos, sua nova empreitada, já começou aplaudida. Não é para menos. A ideia é de fato ótima, e as peças são lindas. Batizada Pelle, a marca da arquiteta Maraí Valente, privilegia os tapetes de couro atanado ao vegetal, que não usa cromo no curtume. Procurando referências para este post, me deparei com a entrevista concedida pela arquiteta à BOOBAM, plataforma/loja conceito de venda on-line. A BOOBAM conecta diretamente artistas independentes e compradores. A curadoria apurada tem foco em artistas de fato, e cada um tem sua própria loja dentro do site e é diretamente responsável pela entrega e atualização de seus produtos. Uma super sacada, que oferece design nacional da melhor qualidade de forma super democrática. A entrevista de Maraí tem tudo o que eu gostaria de saber e de contar para os leitores de Hardecor, então a transcrevo aqui, com a devida permissão, é claro!

A bela Maraí com seu belo tapete

A bela Maraí com seu belo tapete

Como surgiu essa vontade de criar tapetes?
No ano passado, eu estava querendo realizar algo novo além da arquitetura e fiz alguns cursos: um com o Gerson de Oliveira, da Ovo, e outro com o Marcelo Rosenbaum. O do Gerson chamava-se Design de Projeto e cada aluno tinha que levar um projeto pessoal para discutir em grupo. Trabalhamos questões de execução e desenvolvimento de produto do começo ao fim, até chegar ao consumidor final.

E foi a partir daí que veio a inspiração?
Não. A “pele” veio do curso com o Rosenbaum – meu primeiro estágio, aliás, foi no escritório dele. Comentei com o Marcelo que queria fazer algo maior, algo relacionado à sustentabilidade e às questões com a comunidade, coisas que pudessem perpetuar e não só projetos de decoração. Coincidentemente, ele estava inaugurando o curso de Design Essencial na Belas Artes e eu me inscrevi. Nesse período, visitamos uma comunidade quilombola em Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Eles têm artesanato inspirado na história das famílias, usam as matérias-primas da região e queríamos explorar esses pontos sem dizer a eles o que teriam de fazer. A intenção era estimulá-los a virem com as soluções de produtos. Marcelo também nos apresentou seu trabalho com a aldeia Yawanawá, no Acre, que foi evangelizada e, por causa disso mudou o estilo de vida e de produção. Agora, eles estão tentando resgatar músicas e danças que haviam sido proibidas. O Marcelo entrou para ajudá-los no resgate ao jeito de morar, a oca. Decidi visitar o local e me encantei com os grafismos indígenas, muitos deles inspirados nas formas das folhas e dos animais. Voltei com essas imagens na cabeça.

As peles são vendidas inteiras ou pela metade, ideais para quartos

As peles são vendidas inteiras ou pela metade, ideais para espaços menores

Quando isso aconteceu?
De julho a dezembro de 2016. E, em novembro, eu precisei dar um presente a um amigo que acabara de construir uma casa na Bahia. Ao pensar no que eu poderia oferecer a ele, busquei referências na minha origem. Sou de Bebedouro, no interior de São Paulo, onde acontece a festa do boiadeiro, sempre fui apaixonada por tapetes de couro e gostava de vê-los nas casas das pessoas. Aproveitei um pedaço de couro que havia sobrado de um projeto de decoração e resolvi fazer um teste. Pintei-o com os grafismos indígenas e dei o tapete para meu amigo.

E ele gostou? Como foi a receptividade?
Não só ele como as pessoas que estavam participando da festa. Comecei a receber pedidos para confeccionar outros desenhos e tamanhos maiores. Em fevereiro, uma amiga me chamou para participar com ela de um bazar e fiz outros modelos com outras cores. Acabei vendendo todos os dez tapetes e a experiência serviu como um belo teste para mim.

Com furos e imperfeições, o couro bovino da Pelle registra as marcas da vida do animal. “Esse é o charme do meu produto”, declara a designer à plataforma BOOBAM, onde comercializa seus tapetes

Com furos e imperfeições, o couro bovino da Pelle registra as marcas da vida do animal. “Esse é o charme do meu produto”, declara a designer à plataforma BOOBAM, onde comercializa seus tapetes

Foi tudo muito rápido, então?
Para você ter uma ideia, na semana dessa venda, tive que fazer o Instagram para divulgar os tapetes e já queriam saber qual era a marca. A Gabriela, da Bloco Gráfico, fez o logotipo e ficou genial, tem tudo a ver com os desenhos das peles. Depois, os organizadores da Feira na Rosenbaum me ligaram para eu participar da feira étnica deles.

Onde você produz os tapetes?
Na sala da minha casa, ainda não montei um ateliê. Tenho bastante espaço aqui para abrir as peles grandes e pintar. Por enquanto, faço dois tamanhos: a pele inteira, de 2 x 2,30 m, e as meias-peles, com 1 m x 2,30.

Coleção Estrutura

Coleção Estrutura

E quanto às cores?
Uso tinta específica para couro e as cores dependem da coleção. Tem preto, marrom, camelo, caramelo, branco, vermelho, verde, azul rosa e amarelo. Eu pinto à mão com tinta à base de água para evitar agentes químicos. Não quero usar nada que polua ou deixe resíduo na natureza. Seleciono couro curtido com extratos vegetais porque não usa cromo no curtimento. Não quero também o couro perfeito, mas, sim, os que apresentem as marcas da vida do boi. Esse couro, com furos, carimbos e outras imperfeições, ganha classificação B e C e vira estoque morto no curtume. As indústrias calçadista e moveleira não o querem, consideram as marcas um defeito e, não, uma qualidade.

Quantas coleções você já fez?
Três. A coleção Urucum traz características indígenas, a Horizon é inspirada em gráficos da radisestesia, num estilo mais art déco. Nessa linha, eu tinjo o couro por inteiro e faço misturas com amarelo, rosa e camelo. A mais recente se chama Estruturas e se refere a tudo que se sustenta: um esqueleto, uma estrutura de folha, o sistema viário da cidade, algo mais amplo.

Maraí prepara outras peças, como almofadas. Lançamento em breve

Maraí prepara outras peças, como almofadas. Lançamento em breve

Você já havia criado outros produtos, Maraí?
Fui casada e trabalhei com o Arthur Casas e o Arthur, além de projetos, sempre gostou de desenhar produtos para a casa: maçanetas, coleção de talheres, luminárias, mesas e objetos. Na época em que eu trabalhei com ele, não havia importados como hoje e tínhamos de criar várias peças. Essa foi a minha escola.

Quais serão os próximos passos?
Quero criar uma linha de objetos, que incluirá também almofadas. Não deixei de fazer arquitetura, mas estou muito envolvida com a produção dos tapetes. Meu foco está concentrado nisso agora.

As primeiras peças foram inspiradas nos desenhos indígenas, que a designer conheceu através do arquiteto Marcelo Rosenbaum

As primeiras peças foram inspiradas nos desenhos indígenas, que a designer conheceu através do arquiteto Marcelo Rosenbaum

ONDE ENCONTRAR: BOOBAM: https://boobam.com.br/loja/pelle-by-marai-valente

Maraí Valente: http://maraivalente.com/;

Jornalista: Regina Galvão; Fotos: Luiza FLorenzano

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