O colecionismo do ponto de vista psicanalítico

O colecionismo do ponto de vista psicanalítico. Hardecor vai apresentar a partir de novembro uma série de posts sobre coleções, e convidou as psicanalistas Dra. Fátima Tavares Tiezzi e Dra. Vera Tavares para falar sobre o tema. Quase todos colecionamos algo, uns muito, outros nem tanto. Latas de cerveja vazias, gibis, selos, conchinhas, bem comum entre as crianças, até carros novos ou antigos, objetos de decoração, aparelhos de jantar ou apenas pratos, quase qualquer coisa pode e é colecionada no mundo. As motivações também variam enormemente, e não é possível generalizar, explicam as profissionais Dra Fátima e Dra Vera, especialmente porque somos todos diferentes, com sentimentos e anseios diversos. Dra. Fátima Tavares Tiezzi, psicóloga e Dra. Vera Tavares, psiquiatra, são ambas Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e explicam alguns conceitos sobre o colecionismo, sob a ótica da psicanálise. Prepare-se! 

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A coleção de lindos pássaros de porcelana é exibida na estante. Esta coleção eu já fiquei com vontade de começar.

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Souvenirs + patinhos de boracha!

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As coleções exibidas na cozinha. E eu, o que coleciono? Coelhos! A minha ainda é bem modesta, mas é linda.

Hardecor: Quais são, do ponto de vista psicanalítico, as principais características de um colecionador?

Dra Fátima Tavares Tiezzi e Dra Vera Tavares : A definição de colecionismo é um tanto complexa, em suma se refere a prática de guardar, organizar, selecionar, trocar e expor diversos itens por categoria em função dos interesses pessoais.

H: Porque as pessoas colecionam?

FT e VT: A dificuldade de se desenvolver uma teoria a respeito está no fato de não haver uma única motivação para se colecionar e nem um único significado para esse prazer. Cada caso precisa ser analisado individualmente e com suas especificidades.

H: Quais são as motivações comuns aos colecionadores?

FT e VT: Do ponto de vista psicanalítico, colecionar envolve adquirir um conjunto de objetos, associados a uma carga emocional proveniente de experiências nostálgicas do passado. Os adultos, em alguns casos, colecionam objetos da infância que despertam lembranças desse período, os quais funcionavam como um porto seguro diante das angústias despertadas pela realidade e do futuro incerto. O desejo de controle onipotente, despertado por essas angústias, está intrinsecamente ligado à psique humana e se desenvolve no inicio da vida, quando o bebê percebe que o mundo externo existe e não está sempre à sua disposição, começando a lidar com frustrações e limites da realidade (principalmente ausências da mãe, desmame, etc…). Inicia-se assim uma necessidade de controle onipotente da realidade que ocorre inconscientemente e com intensidades diferentes para cada pessoa. A coleção pode ser utilizada no intuito de oferecer ao colecionador a oportunidade de poder exercer o controle desse pequeno mundo (“a coleção”), em contraste com o mundo real que não pode ser totalmente controlado. Podemos supor que esse mecanismo seja uma maneira do indivíduo lidar com suas angústias mais primitivas.

H: Como os colecionadores se relacionam com suas coleções?

FT e VT: O colecionador cria um sentimento de afetividade com os objetos de sua coleção, atribui a eles propriedades distintas com sentido e passa a se dedicar a eles com muito cuidado para mantê-los para sempre. Observamos em muitos casos coleções que são passadas por gerações a fio.

H: Como as coleções são escolhidas?

FT e VT: A pessoa não é somente o que se vê nela, mas também o que se vê nas coisas que possui. A coleção pode dizer coisas a respeito do colecionador. A identidade do colecionador se estende e se amplia na sua coleção e os motivos para colecionar são as projeções de sua personalidade:  a busca do poder, do conhecimento, das lembranças da infância, prestígio e controle.

H: Quando a coleção pode ser considerada uma patologia?

FT e VT: Os casos patológicos ocorrem quando o indivíduo não tem claro entendimento dos motivos de seu comportamento, com pouco ou nenhum controle sobre o comportamento de colecionar. A coleção passa a ocupar um espaço exagerado no dia a dia e a controlar e exercer poder sobre o indivíduo, deixando de ser prazerosa a interação com seus objetos.

Fotos via: mobly.com.br; uol.com.br; minascasa.com.br

9 Responses
  1. Olá ! A respeito de colecionadores , eu convivo com um , para mim , é difícil conviver , ele tem o estranho hobby de colecionar canivetes , eu não acho nada normal ter essa mania , não sei lidar , ele não reconhece ser um problema. Ele se tornou agressivo no comportamento, controlador e meticuloso , detalhista , crítico. Como posso convece lo de que precisa de ajudar …?

    • Oi Silmara,
      Não penso que colecionar canivetes ou outra coisa seja um problema, mas o comportamento sim. É sempre difícil reconhecer que temos um problema, mas procurar artigos para que ele leia, conversar com familiares pode te ajudar, e a ele também. E claro, você tem que estar sempre atenta e jamais admitir qualquer comportamento agressivo com você ou com a família. Espero que consiga resolver logo essa situação. Se cuide e se proteja.
      Abraço
      Valéria Coelho

  2. ola, eu coleciono jogos de video antigos, nem consigo achar já interessante os recentes, apenas os com mais de 25 anos, consolas , manuais, acessorios, e tenho vitrines na minha sala. A minha familia nao compreende. trabalho, nao gasto exagerado e nao tenho vicios.

    • Oi Nuno
      Adoro objetos antigos & livros, e sempre encontro espaço para mais um livro ou uma nova peça. É bem difícil fazer a turma entender, mas continue tentando.
      Boa sorte para nós!!
      Grande abraço e obrigada por prestigiar Hardecor
      Valéria Coelho

  3. Eu não sei se seria exatamente uma coleção … acho q sim… tenho cerca de 80 perfumes, não sei explicar … amo cheiros, a sensacao de bem estar que me trazem é inexplicável …. já cheguei a ter 145 perfumes, mas vendi, usei e dei alguns e atualmente tenho 82, não posso nunca entrar no assunto com meu marido pq ele entra em conflito comigo, diz q eu tenho uma doença por ser assim, que não sou normal, isso me deixa realmente triste, muitas vezes não sei o q fazer… procuro evitar tocar no assunto, tenho perfumes com quase 10 anos

  4. Ótima materia! To meio obcecado por esse assunto do colecionismo como forma de expressão, tenho algumas coleções em casa e acho que o garimpo e a pesquisa nesses objetos agregam muito valor na decoração. Trazem muitas histórias diferentes para o ambiente. Ganhou um leitor! Beijos!

    • Oi Jonas!!
      Que boa notícia, obrigada.
      Adoro coleções, e concordo com você sobre o valor que agregam a decoração, que assim como a roupa, traduzem a personalidade de cada um de nós, para o bem ou para o não (rs)
      Espero que continue te surpreendendo.
      Beijos
      Valéria

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