Kiko Zambianchi em entrevista exclusiva para Hardecor

Kiko Zambianchi, em entrevista exclusiva para Hardecor, fala com franqueza sobre carreira, sucesso e inspiração. Francisco José Zambianchi, o Kiko, nasceu em 1960 em Ribeirão Preto. Cantor, guitarrista e compositor de sucesso, Zambianchi começou a tocar guitarra na adolescência, e a participar de festivais estudantis e peças de teatro. A aceitação do público incentivou o músico iniciante a investir na carreira, fazendo shows pelo interior. Aos 23 anos, Kiko se mudou para São Paulo, onde foi contratado em um mês pela gravadora EMI. No final de 1984 o single de “Rolam as Pedras” estourou nas rádios paulistas e posteriormente em todo o Brasil. A música “Primeiros Erros” foi praticamente descartada pela gravadora, mas Kiko Zambianchi, acreditando no potencial da música, fez sozinho a divulgação da música, indo em rádios da grande São Paulo com o disco para que fosse tocada, e aos poucos a música começou a ser conhecida e executada, alcançando o topo das paradas em todo o Brasil. Em 1987, no álbum “Kiko Zambianchi“, Kiko muda completamente o seu estilo de tocar e apresenta um novo gênero musical, com metais e muito funk em uma base sempre “rock and roll”. A versão de “Hey Jude”, dos Beatles, assinada em 1987 por Rossini Pinto feita especialmente para a novela Top Model, estourou na voz de Kiko, que pressionado pela EMI, sua gravadora, por músicas mais “românticas” e comerciais, rescinde o contrato e parte para voo solo. Em 1997, o cantor e compositor brasileiro lança “KZ” pela gravadora Warner, com remixes de antigos sucessos e músicas inéditas. Em 2000, Kiko Zambianchi foi presença marcante no sucesso do disco “Acústico MTV” da banda Capital Inicial, o que rendeu participação no Rock in Rio e mais de 250 shows pelo país. O novo disco, ou “Disco Novo”, de 2002 pela gravadora Abril Music, veio recheado do pop rock que consagrou Kiko nos anos 1980, em um belíssimo trabalho de composição e arranjos. Para comemorar os 25 anos do lançamento do primeiro disco, em 2010, Kiko grava seu “Acústico” no Teatro Pedro II, em Ribeirão Preto, sua terra natal. O próximo projeto está no forno e enquanto lapida a nova obra, Kiko faz shows animados e cheios de fãs felizes pelo Brasil.

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Hardecor: Quem é Kiko Zambianchi hoje?

Kiko Zambianchi: Um cara que tem que tocar direto, compor e trabalhar direto pra sustentar um músico, simples assim. Hoje em dia já estou mais tranquilo com minha carreira, com uma base boa para me dar tranquilidade.

H: O que mudou em você além do óbvio amadurecimento, dos anos 1980, quando você começou, até os dias atuais?

KZ: Mudou muita coisa. Antes as pessoas gostavam de coisas novas, buscavam coisas diferentes e hoje, tenho a impressão, procuram as coisas mais iguais possíveis. Muitas músicas parecidas umas com as outras, muito cantor cantando igual a outro, muita imitação e muita coisa de nível questionável. Estamos em uma fase em que realmente a poesia das músicas, se é que a gente pode chamar de poesia, é uma coisa meio vergonhosa. Isso mudou, mudou a música nesse sentido, e talvez até ajude a gente que vem dos anos 1980 a se manter um pouco mais, porque está muito difícil  o aparecimento de coisas novas legais, não tem espaço para os artistas mais novos aparecerem. Novos de qualidade, pois tem muito artista novo, mas muita coisa ruim, muita coisa que eu acho que não faz a cabeça da maioria não, e mesmo os que hoje gostem, talvez daqui a um tempo se envergonhem e não gostem mais. Como aconteceu nos anos 1990, que teve muita porcaria e as pessoas todas adorando e todo fim de semana estava aquela porcaria na televisão e hoje em dia você não quer mais saber de nenhum artista daquela época. Não fizeram nenhuma história, não deixaram nada. Espero só que o Brasil acorde logo pra não ficar esse vazio porque isso aí realmente é uma coisa de momento, eu espero, mas tudo pode piorar também, né?

H: Como você percebeu seu talento para a música? Como você entendeu que seu talento era esse?

KZ: Eu estudava em um colégio que tinha festival de música todo ano, e com 13 anos eu já comecei a participar, e ganhei quando eu tinha 15. Depois de ganhar, gostei da história e comecei a participar de vários festivais na região de Ribeirão Preto, eu sou de lá. A partir daí foi surgindo uma vontade de continuar e as pessoas gostavam do meu trabalho. Eu tocava e falava que a música era minha; as pessoas gostavam e eu achava legal isso.

H: O que foi mais importante na sua formação?

KZ: Eu acho que meu pai. Ele ouvia muita música clássica e levava a gente pra passear de carro ouvindo música clássica, e acho que isso me deu uma base legal de melodia. Mas depois é claro, fui curtindo mais o rock and roll e fui conhecendo outras coisas, mas acho que a melodia vem mesmo desses passeios com meu pai. E acabei fazendo uma mistura de rock com uma melodia um pouco mais legal, mais trabalhada.

H: Fale sobre o seu processo criativo, por favor, Kiko.

KZ: Faço a música primeiro e as vezes sai a música e a letra já direto, tudo de uma vez, e as vezes faço a música e vejo que não vai sair nada mesmo, então mando a música para o Dinho (Dinho Ouro Preto), ou outro compositor. Mas o processo é assim: primeiro faço a música, um certo sofrimento que eu não sei o que é, mas deve ser a tal da inspiração e tenho que pegar o violão e tocar e acaba surgindo uma música, que ”pede” uma letra, ou passo para alguém colocar a letra.

H: Você chegou onde você queria?

KZ: Não, eu acho que poderia ter chegado muito mais longe, mas a gente erra, faz besteira na vida, às vezes não faz o que tem que fazer, às vezes faz uma coisa errada, mas é assim. Eu acho que a gente tem que continuar trabalhando sempre, quem acha que já chegou a algum lugar nunca vai crescer. Eu ainda acho que tenho para crescer sim.

H: Uma das minhas perguntas era quais suas considerações ou impressões sobre a música atual no Brasil, e a gente já falou sobre isso. Tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar?

KZ: Eu acho só que a gente tem que ter cuidado. Eu nunca achei que sentiria saudade de um diretor artístico, pois antes era uma pessoa tão chata na gravadora: “pô o diretor artístico, aquele cara que direciona as coisas”,  mas hoje eu sinto falta entendeu? Como a internet virou uma coisa pública e os artistas acabam meio que viajando ali, dentro daquele espaço que não tem dono e acabam surgindo coisas, mas essas coisas são geralmente sacadinhas, são coisas gozadinhas.  A coisa está meio rápida. Você manda um vídeo de uma música que tem 03 minutos e a pessoa não tem paciência para ouvir. É difícil, a gente está em um momento diferente mesmo, que a gente precisa tomar cuidado e não misturar as bolas para não ficar sem nada dentro da cultura.

H: A que você atribui isso?

KZ: Eu acho que é muito a escola, o brasileiro precisa da escola para entender um pouco de tudo, de música, se não ele é levado pelo que está passando na TV. “Ah, se passou na TV é bom”, e nem sempre é assim, às vezes o que está passando na TV é ruim ou alguém pagou para isso. Não está ali porque é demais, está ali porque alguém pôs dinheiro e as pessoas não sabem, e acabam comprando esse “produto” por essa falta de estudo, de escola. Eu acho que quando o Brasil tiver um ensino básico legal como tinha antes, vai melhorar o país inteiro. A gente precisava dar uma força nisso.

H: O que você acha que mudou com a internet, Kiko?

KZ: Com a internet as coisas são mais rápidas e menos profundas, mais superficiais. Então é rápido, o cara quer um negócio hoje, outro amanhã e outro depois de amanhã. Não tem tempo para digerir nada, é rapidinho e tchau. Eu acho que isso aí gerou a música atual e gerou um monte de outras coisas, uma confusão louca e talvez a sociedade inteira esteja confusa em vários sentidos. Uma estratégia para desunir um pouco a sociedade, talvez como parte de uma preparação para dominar politicamente o país. Estão dividindo muitas as pessoas, branco, negro, rico, pobre e assim vai,  e isso afeta tudo e afetou a música também.

H: Quais são os projetos com os quais você está envolvido hoje?

KZ: Eu estou fazendo parte de uma banda, “Os pitais” que é uma banda que toca nos hospitais de São Paulo. No Hospital do Câncer, Hospital do Coração, algumas creches, asilos e agora vamos fazer um som para os refugiados. É um projeto bem legal, tem gente como a Pitty, gente do Sepultura, compositores, Marcio Mello que compôs música para a Daniela Mercury, tem baiano, tem branco, tem preto, tem cinza, tem todo mundo lá, e todos os tipos de som. O ultimo que a gente fez teve a participação do Catra. Todo mundo que está disposto a ajudar e é isso, esse é o projeto que estou fazendo, e meu “Kiko Zambianchini” mesmo.

H:  Como é estar no palco?

KZ: É demais, a melhor coisa que tem é você estar no palco e poder mostrar seu trabalho.

H: Como é a casa de Kiko Zambianchi?

KZ: Minha casa não tem muita decoração não. É uma casa alugada e tem um monte de coisas da casa antiga. O projeto é de um arquiteto bem famoso da época do Niemeyer, que agora não vou saber o nome, mas é ridículo eu não saber por que o cara é fodido. É uma casa normal, eu até gostaria de fazer uma decoração legal mas, nossa, eu sou tão bagunceiro, precisaria de uma ajuda profissional, inclusive para organizar a bagunça porque eu tenho certeza que ela não vai desaparecer! Tudo o que chega de instrumento vai entrando e fica aquela loucura, mas é muito agradável porque se não fosse, as pessoas não iriam e nossa casa está sempre cheia de gente, graças a Deus.

H: Kiko, ultima coisa, dê uma dica, por favor, para os leitores de Hardecor.

KZ: Uma viagem. Portugal é muito bacana, você vai ver muito castelo, muita coisa legal e um país falando a língua portuguesa e que deu certo. É muito legal isso, você poder andar nas ruas com a máquina fotográfica às 02 horas da manhã no centro sem se preocupar com um assalto. Eu acho legal porque é um choque para a gente que  perdeu o direito de ir vir, então acho que ir pra algum lugar ou andar na rua na hora que você quiser é uma coisa que abre os olhos para a gente ver o país em que estamos morando. Isso é uma dica para vocês. Portugal e Espanha. Lindos!

H: Kiko, como você faz para ser tão magro, porque eu fique morrendo de inveja?

KZ: Putz!  Hoje por exemplo, não tomei café da manhã, não comi direito, vim pra cá passar o som e não almoçamos, comi uma esfiha e é assim.  Sou um cara muito ativo.

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