Oreste Bortolli Jr.

Arquiteto e urbanista, Oreste Bortolli Jr. é professor doutor da Universidade de São Paulo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Com intensa experiência na área, e ênfase em habitação, equipamento urbano, cultura e cidade, Oreste escolheu como uma de suas linhas de pesquisa o setor terciário, realizando investigações históricas sobre o comércio de luxo no âmbito internacional.

HARDECOR: A descoberta de novos materiais muda a arquitetura ainda hoje?

Oreste Bortoli: Certamente. Especialmente no comércio de luxo, a descoberta de novos materiais e novas técnicas traz avanços significativos nas construções, tanto do ponto de vista espacial, funcional, estético e mercadológico.

 H: É possível entender e traduzir uma cidade através de sua arquitetura?

O: Se seguirmos a orientação que nos dá a pesquisadora da arquitetura do comércio de luxo, Brigitte Fitoussi, as primeiras impressões, os primeiros contatos com a cidade, muitas vezes surgem a partir da percepção de suas lojas, uma percepção urbana imediata. Parecidas ou diferentes, por vezes isoladas, justapostas, atraem o olhar. As vitrinas e os signos remetem a uma série de imagens instantâneas sobre a natureza do local onde elas estão, o estilo e qualidade de vida, enfim, toda a animação do povo e das multidões. Pontuando a cidade com suas luzes, de dia ou de noite, as lojas seduzem os passantes atraídos pela oferta do espetáculo de rua – do mundano ao magnífico – que são renovados a critério da estação ou da moda.

H: É possível/desejável eliminar a oposição entre o interior e o exterior?

O: Mesmo nos shopping centers cuja arquitetura parece demandar o posicionamento da imensa maioria das lojas para o interior, existe a necessidade de estabelecer uma relação com o exterior, o que pode ser observado nos acessos envidraçados, e em algumas lojas voltadas para a rua.

H: Quais são as principais diferenças entre os templos de consumo de luxo do passado e os atuais?

O: Mais do que uma diferença, houve uma evolução, uma vez que os grands magazins resistem ao tempo. Em meados do século 19 a industrialização e decorrente desenvolvimento tecnológico estimulam os arquitetos a tomar proveito do aprimoramento das conquistas no campo da técnica do ferro e do vidro. Assim, desenvolveram especialmente na Europa e na América do Norte estabelecimentos comerciais direcionados à classe dominante – as galerias comerciais e as lojas departamentais,- não raro, construídas com a adoção das grandes janelas de vidro plano, definindo o que se pode chamar de ‘período da visão’. A caricatura, a crônica, o romance da época irão comentar com extraordinária agudeza o engodo dessa conquista que, na expressão de Baudelaire (Charles Pierre Baudelaire), irá permitir ao pobre, enfim, contemplar de perto a alegria do rico.

Em Paris são construídas as grandes lojas departamentais, lugares dedicados ao luxo. Um exemplo contundente foi e ainda é a Printemps. Escadas suspensas, pontes metálicas e elevadores ligam os diversos setores da loja nos quais se instalam uma profusão de mercadorias de luxo. Nos Estados Unidos eram colocadas em prática as construções em ferro e aço, produzidos em série, tornando possível a construção de arranha-céus.

Sob a influência americana no século 20 o universo comercial passa por inúmeras transformações, movimento intensificado nos anos de 1980, a ‘era do marketing’, com a demanda de estratégias e fenômenos de produção e de distribuição mais complexos. O consumo de massa, os produtos fabricados em série, as franquias, as redes de lojas, e claro, a publicidade, induzem interferências de gostos e de classes. Operadas por meio de mudanças de tipos, de dimensões e formas diversas, as lojas continuam perpetuando uma tradição urbana e comercial, contribuindo, portanto, para a transformação da imagem das ruas e de bairros inteiros.

Pontos de venda diversificados multiplicam-se na cidade e nos continentes. Do mesmo modo, as estratégias mercadológicas entram em uma desenfreada busca pela marca que, nem tanto buscam o alto luxo, mas trazem etiquetas e assinaturas de estilistas. Neste sentido, a arquitetura do estabelecimento é preponderante, pois ela pode tornar-se a própria mídia que se comunica através de um modelo característico, ou seja, por meio de uma semântica sutil: tudo é absolutamente projetado para a venda, do espaço à embalagem.

No século 21, surgem as flagship stores, demonstrando cada vez mais como as marcas de moda estão se posicionando por meio da arquitetura e design, bem como relacionadas com as referências de arquitetura contemporânea, com autores do quilate de Renzo Piano, Rem Koolhaas, Jacques Herzog & Pierre de Meuron.

H: Qual é a importância da arquitetura como estratégia mercadológica?

O: Um bom exemplo é a flagship Prada em Nova York, um dos investimentos mais caros na história do comércio de luxo. A loja está localizada em um edifício original do século 19, com fachada de ladrilho e ferro fundido distribuído em dois níveis; acesso e subsolo. Na entrada principal um elevador de vidro leva os consumidores para o andar inferior, e durante o pequeno trajeto os produtos e as pessoas se movimentando podem ser observados. Outra forma de descer para o nível inferior é por meio do solo curvo que vai do nível de acesso ao subsolo. Essa ondulação, criada intencionalmente para guiar os consumidores, funciona como um espaço de exposição, de passagem, de descanso, e ocasionalmente pode ser utilizado como auditório. Estatísticas comprovam que as flagship stores chegam a vender até cinco vezes mais que as plantas tradicionais.

Sem estratégia direcionada a um determinado público não se vende o produto. Outro bom exemplo são duas lojas destinadas ao público jovem, que abrindo mão das vitrinas apelam por evocar sensualidade, e tem nas portas das lojas modelos vivos em justos trajes esportivos que recepcionam os consumidores. Falo aqui da Abercrombie & Fitch e da Hollister. Os artigos não são de luxo, mas o modo e o fato de adquiri-los tornam estes artigos objetos de desejo e consumo em nível internacional.

H: Do ponto de vista arquitetônico, cite uma cidade com obras atuais importantes.

O: Há muitas, como Paris, Londres, Madrid e Barcelona, contudo, acredito que em foi Berlim onde mais se investiu.

H: Como é a casa do arquiteto professor doutor Oreste?

O: Moro em um apartamento do período moderno, da década de 1960, no qual há poucos pilares, o que me possibilitou eliminar muitas paredes e ter interação entre os ambientes, inclusive cozinha aberta para a sala de jantar e estar. Grandes janelas me garantem luz o ano inteiro.

H: O que você esta lendo?

O: Entre uma leitura técnica e outra, acabo de ler Bonsai, um romance do chileno Alejandro Zambra.

H: Para onde você vai nas próximas férias?

O: Provavelmente para Nova York.

H: Conte para os leitores de Hardecor um lugar que te impressionou.

O: Recentemente fui à Turquia onde, além de passar por sítios históricos, ter andado de balão na Capadócia, um hotel na Riviera Turca me impressionou por sua localização.  O La Vista, em Kusadasi. Construído no alto de uma colina e em uma curva era possível contemplar o Mar Egeu de todos os seus recintos internos e externos.

H: Quem faria o projeto de sua casa?

O: Bem, eu mesmo o faria, mas se entrasse em crise, convidaria meus colegas de trabalho para projetarmos juntos. Faria questão de ter nesta equipe o Ângelo Bucci.

departmentstoreparis.printemps.com

rpbw.com

Comércio de luxo. do período da visão à era do marketing, seus impactos na cidade e a participação do arquiteto nesse processo

lavistahotel.net

 prada.com/en

 

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