Almacenados, ou Warehoused, filme bacanérrimo na Netflix

Almacenados (Warehoused), dirigido por Jack Zagha Kababie, é a versão cinematográfica da obra original do dramaturgo espanhol David Desolá. A produção mexicana, lançada em 2015, mostra que o cinema não precisa de orçamentos milionários para contar uma história forte e, ao mesmo tempo, sensível, baseada no choque das gerações, nas reflexões de uma vida dedicada ao trabalho e, principalmente, na dificuldade em modificar padrões comportamentais. O filme retrata o dia a dia em uma semana de trabalho dos protagonistas Sr. Lino (José Carlos Ruiz) e Nin (Hoze Meléndez), dentro de um armazém, espécie de filial de uma empresa de mastros de alumínio. Sr. Lino é o encarregado do armazém e se encontra em sua derradeira semana de trabalho. É daqueles funcionários que se orgulham em cumprir os detalhes burocráticos à risca. Exemplo de sua conduta é o fato de registrar o ponto em um relógio adiantado sete minutos, sem nunca expor a situação ao escritório central; ao contrário, para se ajustar ao equívoco, chega sempre às 6h53 para iniciar sua jornada de trabalho às 7h.  Nin é o jovem contratado para substituí-lo, o qual Sr. Lino irá treinar antes da aposentadoria. Realizado com ares teatrais, Almacenados evoca aquele cinema moldado em diálogos que fluem naturalmente, sem exageros, em interpretações precisas. A simplicidade estética do filme transborda nas próprias concepções do enxergar a vida das personagens, que, apesar das diferenças de idade e atitude, no fundo, rumam ao mesmo destino. A aparente contestação do jovem aos hábitos do mais velho somente o auxilia em sua adaptação ao posto, sem, entretanto, assumir o significado de um rompimento com linhas mestras consolidadas. Almacenados é daquelas obras que nos fazem refletir sobre as relações com o mundo do trabalho, seus códigos de condutas e convenções.  Mas, acima disso, e talvez como a grande metáfora do filme, sobre os comportamentos herdados e, na maioria das vezes, não questionados. “É assim, porque é assim, Nin”, repete Sr. Lino em passagens do filme. Trata-se da resistência humana às transformações profundas, do passar do tempo, da espera por um futuro, mesmo que incerto, sem sentido, construído sobre as horas que não voltam jamais. O filme é bacanérrimo. Um ótimo programa para a quarentena, disponível na Netflix

via: http://jornal.puc-campinas.edu.br/almacenados/; texto: Armando Martinelli

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