Alexandra Loras em entrevista exclusiva à Hardecor I

Alexandra Loras, em entrevista exclusiva à Hardecor, conta um pouco de seu caso de amor com o Brasil, suficiente para que o marido largasse a carreira de diplomata. E assim eles se estabeleceram neste nosso “patropi”. Esta francesa linda, sorridente e altíssimo astral se identificou com a cultura local a ponto de falar que pretende pedir a cidadania brasileira. Mestre em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora, empresária, consultora de empresas, autora e palestrante, Loras lançou o livro “Gênios da Humanidade” em parceria com o historiador Carlos Eduardo Dias Machado. A obra traz à superfície nomes expoentes das ciências humanas, exatas e biológicas que tem como ponto em comum a origem africana.  Ex-consulesa da França até outro dia, Alexandra trouxe temas espinhosos como racismo e empoderamento feminino à tona. Super atuante, ela fala o que pensa e bota para quebrar, virando do avesso as relações desiguais e tão bem estabelecidas tanto nos trópicos quanto na velha Europa. Ela veio para nos fazer questionar/valorizar nossos conceitos/preconceitos, talentos e qualidades, muitas bem particulares do povo brasileiro, como o jogo de cintura e a facilidade de relacionamento com estranhos. Loras está com tudo. Participa de programas de TV, aparece em revistas e jornais, enfim, o Brasil está à seus pés. Uma lutadora, que aprendeu com sua mãe a valorizar a verdade, Alexandra foi apresentadora na França, fala cinco idiomas, morou em oito países e conheceu mais de 50, e bem importante, aprendeu com o que viveu. Experiências que sem dúvida, a qualificam para sugerir caminhos e ser uma das vozes femininas mais importantes no Brasil hoje. A família vive em São Paulo. Seja bem vinda, Alexandra!  

alexandra loras (Copy)

                                                    A linda Alexandra Loras

Hardecor: Alexandra, fale por favor sobre a decisão de morar no Brasil.

Alexandra Loras: A França é um lugar especial! Mas eu vou te dizer: prefiro de longe o Brasil, por uma mistura de coisas que o Brasil me deu e hoje não consigo tirar de mim. Este país me empoderou, resgatou minha autoestima… me deu voz, eco e de uma certa forma ele me revelou, me ajudou a me revelar, não sei se é a melhor versão de mim mesma, mas pelo menos é uma versão muito melhor da versão que eu tinha anteriormente. Hoje eu me sinto útil, me sinto eficaz, já vejo resultados das minhas ações de um ano atrás… A revista VOGUE desse mês que tem 34 páginas com mulheres negras. Vejo que a mudança está chegando e que o brasileiro tem uma inteligência emocional muito mais desenvolvida que a dos europeus, uma flexibilidade, além de mais empatia e compaixão. Hoje para mim o Brasil é um adolescente rebelde, está em uma fase de crise de confiança com as instituições, organizações, com a política, com a economia, com todo o sistema, mas é bom por que é como um adolescente rebelde que está mesmo querendo chacoalhar, mexer com tudo. Eu acho muito corajoso, eu tenho muita admiração por vocês, por terem a coragem de enfrentar a corrupção, de enfrentar o jeitinho brasileiro, de enfrentar o machismo… na Europa isso é tão costurado com uma narrativa de liberdade de expressão, de que está tudo resolvido, que nem conseguimos enxergar o terrorismo como uma consequência da nossa arrogância, do nosso esnobismo, da nossa superioridade depositada no euro centrismo… nos achamos tão legais (risos) que  não tem espaço pra ver que talvez tenhamos sido os terroristas de ontem, por invadir terras que não eram nossas, por criar genocídios nas Américas, na África, na Ásia, por apagar culturas e civilizações. A avaliação de antropólogos e sociólogos que falam do Brasil, é que o brasileiro é 100 anos à frente de todo o mundo em termos de saber lidar com a mistura de culturas, só que o brasileiro tem a síndrome do vira lata, ele se acha inferior e olha tudo que vem de fora como melhor, mas na verdade está tudo aqui. Para mim, por exemplo, São Paulo é como Nova Iorque nos anos 1950, tudo está bombando, florescendo. Claro estamos passando por uma crise, mas é um detox para podermos florescer melhor. Acho que a transformação está vindo do Brasil, vocês tem uma coragem espiritual e também uma produção intelectual muito melhor que na Europa, muito mais aberta, só que tem uma dificuldade para que grandes instituições como a Rede Globo, a Folha, enxergarem que o potencial intelectual não está chegando por eles, está lá dentro da favela, lá dentro do funk, dentro dos saraus e dos bares de filosofia. O Brasil tem uma coisa de olhar para a Europa como muito melhor, mas na verdade a cultura indígena, afrodescendente e a mistura de todas as culturas europeias, libanesa e japonesa, etc, trouxeram uma riqueza e um poder criativo e inovador. Para mim a pior corrupção brasileira não é aquela da Petrobras ou da Odebrecht mas sim aquela que é legalizada, aquela que faz os bancos brasileiros terem o direito de colocar 400% de juros, então uma pessoa que é inteligente, capaz, que quer aprender, pode devolver 400 vezes em um ano o que ela pegou no banco, quando você vende com 2,5%? Como é possível devolver 400 vezes esse dinheiro?? Então essa é a melhor forma pós-escravidão de deixar esses talentos presos para não florescer. Por que se vocês florescerem, vocês apagam em seguida a Europa e a América. Eu acho que essa maneira de deter vocês com esse sistema bancário é a melhor forma para as pessoas não conseguirem se formar, estudar, empreender, mas quando você vê, é um pouco clichê o que vou falar, mas quando você vê a produção do carnaval sai na hora, é impecável, é para metrado, dá tudo certo, é a maior produção criativa mundial, imagina esses povos que chamamos de carentes, que não são carentes, são talentosos e com um potencial enorme, ter a oportunidade de colocar essa sabedoria, essa inteligência organizacional dentro da economia brasileira? Vocês vão se tornar a primeira potência do mundo! Por isso que eles têm medo, a Europa tem medo do Brasil! Por isso eles inferiorizam até a própria mulher brasileira, que é branca, que é de uma família quatrocentona, que tem um doutorado na PUC, ou no Mackenzie, ou na USP, que mora no Jardim Europa…o dia que ela pisa em Paris ou nos Estados Unidos ela não é mais branca, ela é latina, ela não é mais tudo isso, e cai sobre ela uma mochila de hiper sexualização, uma mulher que quer enganar alguém para “sacar papéis”.

H: Um preconceito em estado puro!

AL: Toda uma mochila de preconceito que cai em cima dela, por isso acho o povo brasileiro muito mais preparado para uma revolução, para elevar a consciência humana, porque vocês sabem o que é o preconceito, porque de qualquer classe que você for, você já sofreu preconceito do europeu ou do americano que olha você como uma pessoa do terceiro mundo, mas na verdade somos todos seres humanos, quantos Beethovens não tiverem a oportunidade de serem apresentados a um piano, quantas Marie Curie não tiveram a oportunidade de trabalhar em um laboratório para encontrar algo… Eu acho que somos cheios de talentos, de um potencial imenso, e às vezes a sociedade não nos deixa revelar a melhor versão de nós mesmos.

H: A sua melhor versão é brasileira!?

AL: É o que o Brasil me trouxe. Aqui acho que é o único país do mundo em que se pode falar da religião sem (rs) ficar do lado do terrorista ou do oprimido, e acho muito legal isso de poder fazer parte da igreja católica mas na sexta você vai para Allan Kardec, e no primeiro de janeiro dar uma rosa a Iemanjá…É isso, a espiritualidade é um todo, não é uma religião, todas as religiões falam a mesma coisa de compartilhar, de alegria, de felicidade, de dar o melhor, de união e tradição, de rituais; então se olharmos o  xamã ou o sacerdote, eles tem o mesmo astral, de juntar as pessoas por uma causa maior que é se elevar.

H: E você se identificou?

AL: O que me toca é que me sinto parte desse povo vira lata, eu sou uma vira lata (risos), eu sou uma pessoa que foi inferiorizada toda minha vida e tão humilhada. De certa forma ter morado em 8 países e ter viajado  por mais de 50, me ajudou a ter um perfil atípico e a falar cinco idiomas. Eu venho de uma família chamada disfuncional, mas o que é bom é que eu não vejo nada de disfuncional na minha família. Consegui ser quem sou hoje e ser boa no que eu faço por ter passado por muitas dificuldades. Então eu agradeço todos esses desafios que me empoderaram. Hoje sou casada com um homem aristocrata, um homem de poder que foi cônsul geral da França, que trabalhou 22 anos na diplomacia e foi conselheiro do Nicolas Sarkozy. Fui apresentadora na televisão francesa, passei por muita lacração na minha vida (risos), não era escrito no meu DNA social, mas hoje eu acho que tudo é possível, podemos nos empoderar.

H: Como foi perceber que era possível?

AL: Vou passar uma dica que mudou minha vida. Há 15 anos uma amiga me levou em uma festa da elite. Eu queria sumir, me sentia super ilegítima nesses espaços, e ela que vinha de uma família ainda mais disfuncional que a minha, com pais analfabetos e irmão na prisão por tráfico de drogas, com uma luz, um carisma, um jeito, passava na frente da fila, era atendida por todo mundo, e não era assim uma deusa de beleza, era só uma forma de se colocar. E ela é árabe muçulmana, que é ainda pior que ser negra na França. E eu falei: Jasmim, como você faz para se sentir tão à vontade nesses espaços? E ela falou algo que mudou minha vida: “eu me sinto como a dona do lugar”. Ser a dona do lugar não é ser arrogante, porque quando você pensa ser a dona do lugar você não precisa provar nada para ninguém, você é acolhedora, sorridente com alguém que vem te visitar, você está à disposição naquele momento, está dando de si, sua felicidade, sua alegria, sua gratidão por essa pessoa estar na sua vida. Então peço para as pessoas para passarem por um processo de ser a dona do lugar durante uma semana em todos os espaços onde entram. No Carrefour como se fosse a dona, no dentista como se fosse a dona da clínica, você em todos os espaços como dona. Você vai enxergar como as pessoas te tratam de maneira diferente de que quando você entra e pensa que não pertence a esse lugar, seja a empresa onde você trabalha, uma festa onde você vai e não conhece ninguém…entre no espaço como dona. Eu as vezes chego um pouco mais cedo para ter o tempo de olhar os detalhes da minha casa, pra ter o tempo de me sentir muito mais dona do lugar, muito mais à vontade porque não estou em um espaço desconhecido. E quando esqueço dessas coisas é lá que eu sofro de racismo. Chego no Clube Pinheiros (clube bastante exclusivo em São Paulo) e esqueço de ser dona do lugar, então a segurança me fala: “você é acompanhante dele?” Não, sou sócia. “Mas você é acompanhante dele!”. Não, sou sócia, e mesmo assim a funcionária vai olhar três minutos nas carteiras das babás porque ela não consegue me enxergar como a dona do lugar (risos). É uma coisa muito sutil mas as vezes acontecia na minha própria casa, na residência consular, onde eu recebia mais de seis mil pessoas por ano, e eu podia estar vestida de Gloria Coelho, totalmente produzida, e pessoas passavam por mim achando que era uma empregada da residência. “Moça, pode guardar o meu casaco”? É uma dinâmica que precisamos praticar por que as vezes tem o preconceito da sociedade, o estigma de uma narrativa eurocêntrica que inferioriza o negro e o coloca só no papel da babá ou da faxineira. Então às vezes quando você vê uma negra de destaque, uma negra entre as pessoas de poder, não a enxerga. Não é por ser serem racistas ou preconceituosas, mas as pessoas foram formatadas por uma sociedade racista e eurocêntrica, somos bombardeados o tempo todo.

H: O racismo/preconceito é generalizado?

AL: O grupo de whatsapp dos meus vizinhos está sempre comentando o quanto São Paulo é insegura, outro dia estou abrindo minha casa e vejo um homem negro chegar e veio um medo de algo acontecer, e naquele momento pensei: “eu não posso acreditar que você que está trabalhando isso dia após dia e pode ter preconceito deste pobre homem que está passando na frente da sua casa”. Escutar que um bandido bom é um bandido morto é o mesmo que um negro bom é um negro morto?  Porque quando um negro é assassinado por um policial as pessoas já falam que deveria ser um traficante de drogas, não importa se ele é inocente, ele vai ser um bandido, então o negro nem tem a opção de ser inocente, a narrativa na mídia é violenta. O que mais precisamos é nos enxergar no espelho. “Ah, eu não tenho nenhum preconceito”. Estamos cheios de preconceitos e a primeira tarefa é enxergar isso, porque fomos formatados em uma sociedade que colocou a caixinha da loira princesa, de uma narrativa que não existe… 3% dos adultos do mundo são loiros verdadeiros. 3%! A propaganda brasileira faz uso da eugenia nazista que o ariano é um ser superior (risos), então isso é colocado de um maneira muito sutil e subliminar, e vamos construindo uma sociedade de sonhos inalcançáveis como essa narrativa da princesa. Porque a princesa? Estamos promovendo a aristocracia, a desunião entre as mulheres, porque tem apenas um príncipe e precisamos lutar por ele. Estamos “desemponderando” a mulher dos seus talentos porque ela precisa esperar um homem que vai salvar ela de sua burrice (risos), e depois ela vai ficar feliz, e sabemos bem que o casamento não é isso (risos).

H: Como podemos introduzir, em sua opinião, esses conceitos para a sociedade?

AL: É importante enxergar o quanto precisamos reeducar a nossa sociedade e ver que os videogames, os desenhos animados e a novela, hoje educam mais que os livros. Acredito muito no digital, que podemos mudar a nossa sociedade de maneira muito rápida. Demoramos 50 anos para atingir 500 milhões de pessoas com telefone fixo, e hoje em um dia 500 milhões de pessoas tem acesso ao Pokémon Go, então se desenvolvermos aplicativos sobre o empoderamento da mulher, sobre como reeducar a nossa sociedade para ela ser mais igualitária, vamos mudar! E se falamos de democracia, precisamos entender que a democracia, para ser uma verdadeira democracia, precisaria ter 52% de mulheres em tudo; no congresso, no senado, nos cargos executivos das empresas, na mídia e em cargos de liderança, de protagonismo. Quando virmos juízas e governadoras na novela, vamos acreditar que podemos nos tornar essa mulher e não pensar que somos apenas a recatada do lar (risos), e é tão fácil de se colocar nesse papel.

H: Como você pratica esses conceitos em casa?

AL: A melhor coisa que eu fiz para a minha família foi “fugir” por 10 dias quando o meu filho tinha um ano. Uma amiga estava com problemas de saúde nos EUA, então deixei meu filho com meu esposo e ele teve que se virar durante dez dias (risos). Só que foi a melhor coisa que aconteceu, porque naquele momento nasceu um laço de intimidade e de dinâmica entre eles que ainda hoje não consigo penetrar. Eles são muito próximos, mas porque deixei o homem entrar nessa dinâmica, não resolvi com uma babá, deixei o pai cuidar, e ele sentiu que era gostoso cuidar do filho, e agora ele abriu mão da carreira diplomática para cuidar do Rafael e eu estou trabalhando, eu sou a chefe da família hoje. Então a maioria dos casamentos acabam porque tem esse desiquilíbrio. Por que focamos só na carreira do homem? Nós mulheres podemos também focar na nossa carreira, e não é deixar a família, é também dar o exemplo para os nossos filhos que trabalhar agrega valor à sociedade, que o papel da mamãe não é apenas ser assistida, estar em segundo plano. Porque para mim o primeiro empoderamento é o empoderamento econômico. Hoje o Bolsa Família permitiu a muitas mulheres saírem da toxicidade de casamentos violentos, por conseguir falar “sabe o que? Vou embora”, não admito mais esse tipo de tratamento. De certa forma podemos criticar o Bolsa Família, mas também podemos enxergar que, o aumento de 56% de violência contra a mulher negra nesses últimos 10 anos pode significar que elas estão empoderadas para falar? (risos)

H: Provavelmente! Eu também penso que agora as mulheres se sentem mais amparadas para poder se colocar…

AL: Sim, então hoje tudo é uma construção, mas temos que nos lembrar que a lei autorizava certas coisas como o holocausto, a escravidão, o fato da mulher não poder votar, não poder abrir uma conta bancária sem o homem validar... Claro que a mulher está muito melhor que ontem, mas ainda não estamos onde merecemos estar e onde deveríamos estar.

H: Como as mulheres podem se sentir mais seguras/empoderadas?

AL: É muito bom assistir palestras, uma vez por mês, fazer uma atividade que vai te empoderar, trazer reflexão, e elevar o debate sobre certas questões para enxergar o quanto somos vítimas de um sistema machista e acreditamos até mesmo que é um legado, que deve ser assim, ser boazinha, etc. Hoje os estudos de Stanford (universidade americana)  mostram que a melhor coisa que você pode fazer para sua filha ou neta é não ensina-las a serem boazinhas, porque o dia que ela discordar ela não vai ser violentada. Ela vai saber se colocar na sociedade, e as pessoas vão dizer que ela tem TPM, que ela é mal comida, e ela vai saber se colocar, colocar sua visão, seu posicionamento, suas ideias… Nós já vemos meninas de 23 anos feministas que me inspiram muito mais que a Simone de Beauvoir ou a Frida Kahlo. O Brasil me estimula intelectualmente de uma forma incrível. Bom, será que é conteúdo para escrever um livro? (risos)

DICA IMPORTANTE: Semana que vem, a segunda parte da entrevista!! Fique atento!

 

Alexandra Loras: http://alexandraloras.com/

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