Alexandra Loras em entrevista exclusiva à Hardecor II

Alexandra Loras em entrevista exclusiva à Hardecor, conta para os leitores e para esta editora, uma fã inconteste, seu encanto pelo Brasil e pelo desabrochar de seu melhor lado, como ela mesma define sua maneira de encarar o mundo, pós mudança para os trópicos. Alexandra vive em São Paulo, com o filho Rafael e o marido, ex-cônsul da França no Brasil. Ele se desligou da carreira diplomática para que a esposa pudesse assumir o papel de protagonista na luta a favor do empoderamento feminino e contra o preconceito e o racismo, um absurdo que ainda está presente no mundo. A francesa mais brasileira que se tem notícia, nasceu em Paris, onde morou e trabalhou como jornalista até se casar com Damien Loras, de família tradicional na França, e em função da carreira dele, morou em oito países e conheceu mais de 50. Fluente em cinco idiomas, Mestre em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora, empresária, consultora de empresas, autora e palestrante, Loras lançou o livro “Gênios da Humanidade” em parceria com o historiador Carlos Eduardo Dias Machado. A obra traz à superfície nomes expoentes das ciências humanas, exatas e biológicas que tem como ponto em comum a origem africana. Alexandra Loras não está para brincadeira. Engajada, séria, sorridente e super simpática, ela é uma transformadora em estado puro. Sorte de nós, brasileiros, que temos esta mulher incrível entre nós!!! 

Alexandra Loras 01

                                                         Alexandra Loras

Hardecor: Eu ia perguntar o que te atraiu tanto no Brasil, mas você já respondeu que é essa liberdade que a gente tem…

Alexandra Loras: Você quer que eu fale de coisas um pouco alternativas, sobre a Ayahuasca ou não é o público?

H: Pode falar o que você quiser! risos

AL: Sempre fui muito, muito religiosa. Rezava quando estava no metro, no ônibus, na minha scooter, sempre rezei, e a noite sempre antes de deitar rezava a Ave Maria e o Pai Nosso. Fui criada com freiras, meu pai é de origem muçulmana e judaica e minha mãe é católica, então é uma bagunça bem complicada. Minha mãe na verdade agora é budista, animista. Assim como eu, ela sempre procura uma crença que represente seus valores. Hoje sou Buiti, uma religião de matriz africana. A ayahuasca revelou… não sei se posso dizer, minha bruxa interior. (risos) Eu vi meu potencial, vi que estava totalmente apagada. Sempre fui ambiciosa, sempre gostei de ter desafios, mas eu acho que eu não estava bem alinhada com o meu sonho, eu acho o meu sonho era o sonho de Hollywood, que era me casar com esse príncipe, então claro, casei com um aristocrata, católico, tradicional, diplomata poderoso, mas quando cheguei a esse sonho me dei conta de que não era a minha missão na vida…

H: E nem precisa ser o único…

AL: Sim, não, mas também. Eu acho que foi interessante esse desafio, mas eu… Essa semana fui na Dharma Academia e eles me perguntaram qual era meu sonho quando era pequenina. Eu disse que era ser uma Barbie, então eu consegui (risos), de cabelo alisado (risos), me casar com um homem gato, perfeito, príncipe, mas quando cheguei lá me dei conta de que não era esse o meu sonho (risos). Então acho que os nossos sonhos vem evoluindo. Mas precisamos cuidar da formatação hollywoodiana, que é sempre “ah você tem que casar com um trader, um homem rico, poderoso, lindo e fiel” (risos) e acho que, ah… hoje o que me interessa é ter mais mulheres comigo nessa coisa de empoderamento, porque eu fiz mais de cem cursos de empoderamento, de desenvolvimento pessoal, de programação neurolinguística. Até caminhar na brasa ardente do Tony Robbins, que é o maior coach do mundo… e foi lá que me dei conta, my God, caminhar na brasa ardente é a pior coisa, primeiro a preparação foi em inglês que não é o meu idioma, tipo “ah vou queimar”,  e consegui caminhar, não queimei. E a partir daí me dei conta, my God, quantas crenças, quantas coisas temos que nos limitam, por acreditar que “ai tenho medo, não vou fazer”, ou “não sou capaz”… Eu nunca ia imaginar, 20 anos atrás, que hoje estaria cumprindo meu sonho que era palestrar na frente de muitas pessoas, porque não tinha o conteúdo mas já tinha esse sonho de evangelizar (risos) e hoje evangelizo sobre o empoderamento da mulher. Olhando como ser humano eu sei, por exemplo, que se colocarmos uma mãe católica, uma judia, e uma muçulmana, juntas dentro de uma mesma sala, e se essas três mães são mulheres que já perderam um filho devido a esses conflitos mundiais de terrorismo e de guerras, estou segura de que o brainstorming de soluções de como acabar com esses conflitos...essas mulheres poderiam solucionar esses conflitos. Porque primeiro nós mulheres somos 52% do planeta, mas somos também as mães dos 48% restantes, então somos nós que podemos mudar o mundo, a maneira de educar nossos filhos, como colocar uma mantinha de benfeitoria, de honestidade, de gratidão, como se posicionar…e é muito difícil porque o sistema no qual estamos é muito violento. Vejo com o meu filho. Eu queria ser uma mãe perfeita e não aconteceu, e não queria comprar armas, eu falava “não, eu não vou comprar armas de jeito nenhum, nenhuma arma vai entrar nessa casa, vou educar meu filho no “peace and love” e … ele só fala de armas, de super heróis, de monstros que explodem, esqueleto de zumbis. O sistema é muito mais forte do que eu. Acho que precisamos nos unir. O sistema nos ensinou a sermos desunidas, a competir. Precisamos andar unidas e enxergar que vamos trazer essa mudança que queremos ver no mundo,  unidas. Hoje vejo o quanto o sistema ensina para o meu filho essa coisa da competição, da guerra, mas se vejo as aldeias da Amazônia ou da África, percebo que a dinâmica das crianças é muito diferente, elas não estão com pistolas… Precisamos enxergar nossos monstros no espelho, enxergar nossa sociedade que é muito violenta e trazer outra narrativa. Hoje gostaria estar trabalhando com uma startup. Meu sonho era desenvolver um projeto para deixar os pais votarem sobre qual o conteúdo que gostariam de ver nos desenhos animados, conteúdos que falem como cuidar do outro, como amar o outro, como cuidar da família, como se desenvolver como ser humano na sociedade, saber fazer uma horta, como construir algo… os tutoriais da internet  já deveriam estar na narrativa dos desenhos animados e das novelas. Gostaríamos de saber como aquela pessoa conseguiu se maquiar, conseguiu costurar uma coisa, então vamos também trazer o que funciona na internet para dentro da mídia clássica.  Esse valores e exemplos podem mostrar que existem muitas alternativas. Achamos normal uma criança brincar de guerra, bater, só que realmente não são valores legais. Acho que estamos em uma época em que vamos ter que nos reinventar, nos transformar, nós estamos saindo de um antigo paradigma que era um paradigma de guerra. A França, por exemplo, nunca ficou tanto tempo sem guerra, 50 anos é o máximo de toda a história da França, então a Europa sempre foi um lugar onde houve guerra, e hoje estamos vivendo em um sistema eurocêntrico, por isso acredito no Brasil, porque vocês acabaram a colonização, a escravidão, a ditadura militar… sem guerra (risos)!  

H: Vamos falar do cabelo crespo, Alexandra.

AL: Não quero transformar também em uma ditadura do crespo, eu acho que cada uma está no seu momento, de transição. Algumas mulheres que me contaram que foi muito rápido, muito fácil para elas, outras desistiram, outras que ainda não estão nessa dinâmica… mas pra mim uma mulher negra que tem o cabelo alisado… ah… o mais importante é ela se sentir bem com ela mesma, com essa escolha, eu talvez um dia volte a alisar, não estou em uma coisa fixa. Hoje o meu tempo é de assumir a minha beleza natural, mas amanhã talvez esteja de cabeça raspada (risos). Talvez estarei como a Thais Araújo, talvez com uma extensão (aplique) desse tamanho, loira… não sei, ou azul (risos). Eu gosto de quebrar padrões, eu gosto de ver essa nova era na qual estamos entrando que é muito alternativa, e o alternativo vira quase normal (risos). Quando cheguei no Brasil fiquei chocada de ver todas essas tatuagens, “my God”, mas que vulgar. Até que notei que está em todas as camadas da sociedade, dos multimilionários, políticos, até a favela, a tatuagem é uma forma de expressão. Hoje não enxergo mais a tatuagem como uma coisa vulgar (risos)…sabe? As vezes você vê uma coisa que é estranha virar normalidade, e é isso, vamos passo a passo assimilando a diferença, o que valida seu próprio pensamento. Por isso hoje precisamos debater mais, ter a coragem de não entrar em conflito, mas escutar o outro, ele tem muito a agregar para você, como eu tenho muito a agregar pra vocês… Cada um tem tanto talento, um potencial enorme pra somar, então…eu não tenho a verdade absoluta, e hoje penso de um jeito, amanhã talvez pense de outro, é tudo uma coisa muito orgânica, que vai evoluindo…

H: Acho que o que as pessoas têm mais medo é disso, da mudança. Ficam inseguras, e acho que ser livre é justamente isso, você se permitir…

AL: Hoje a nova geração está quebrando o paradigma da heterossexualidade, homossexualidade. Se apaixonam por uma pessoa, não sei de que sexo essa pessoa vai ser, mas vou me apaixonar por um alguém, independente do sexo…

H: Alexandra, o que tem de brasileiro na sua personalidade?

AL: Meu filho (risos). Meu filho nasceu em Paris, chegou aqui aos cinco meses e ele é totalmente brasileiro, a auto estima que ele tem, a maneira de se colocar, a criança que anda em todos os lugares com atitude e pertencimento, não sei… eu vejo ele muito bem no Brasil, porque vocês dão dignidade para as crianças. Eu cheguei aqui achando que era reino das crianças, só que o reino talvez não seja um reino, mas dignidade e respeito às crianças, e nós franceses falamos: ah…! Existe um livro de muito sucesso que se chama “As Crianças Francesas não Fazem Manha”. Só que eu discordo desse livro, claro que as crianças se comportam muito bem em um restaurante, etc, só que somos o segundo país em consumo de antidepressivos. Acho que a criança não teve tempo de ser criança, de pular, experimentar, de mexer, de errar… “tá” tudo direitinho na caixinha, mas temos que entender que outros povos, como o brasileiro, têm muito para nos ensinar. Gostaria mesmo do colonizado mostrar ao colonizador como ele evoluiu muito mais na adversidade do que aquele que teve o privilégio de roubar, e de ter tudo e no final está fazendo o que com o que ele tem hoje? (risos) Por isso que pra mim o que tenho do Brasil é uma terapia acelerada e uma reparação também. O Brasil me deu voz e me deu a oportunidade de notar que minha voz tinha eco… então sim, o Brasil me deu muito, essa reparação… Fui no “Conversa com Bial”, vou na Fátima Bernardes. É isso que o Brasil me deu, que o fato de eu ser eu mesma, e não aquela do sonho da Barbie, de ser a mulher de alguém, ele me fez enxergar que eu tinha um potencial, que eu tinha algo pra agregar à sociedade, que quando eu empodero uma mulher, as outras também me empoderam de volta. Não tem a ver com meu ego, sou só um canal de transmissão que diz muitas coisas que precisam ser ditas naquele momento…eu acredito muito nessa espiritualidade, porque não posso realmente explicar como meu esposo deixou a carreira dele que é a carreira mais privilegiada do mundo. Quando você é ministro, presidente de um país, você não tem vida, você tem que trabalhar, mas ser diplomata é ter todo o luxo de um presidente ou de um ministro sem precisar trabalhar, ou dar resultados (risos), só precisa estar lá e conversar sobre cultura e ser um embaixador ou cônsul, então ele abriu mão disso porque notamos que podemos aproveitar o privilégio de ter trabalhado e estudado muito para estar nesse patamar, mas que também uma missão pode ser mais importante que uma carreira e que esses privilégios, então hoje baixamos nosso universo social e nossa renda econômica, mas eu me sinto plena no que estou fazendo porque sinto que posso mudar o mundo, e talvez mudar de mundo porque estamos tentando resolver em cima de um mundo que foi criado de maneira muito errada (risos).

H: O que você enxerga em você que é totalmente francês?

AL: A crítica (risos). Somos formatados para criticar cada detalhe, então eu agradeço a minha cultura por ter me dado um senso crítico. O Brasil também me fez enxergar que a crítica não precisa ser só crítica, porque cheguei aqui vendo todas as pessoas felizes, “tá” tudo bem, tudo joia, mas…tem um buraco enorme na rua, tem um sistema de saúde e de educação péssimos, porque vocês estão felizes?? (risos) Até me dar conta que no dia a dia, ser feliz é uma super frequência, então baixei a guarda, minha arrogância, meu esnobismo, e agora estou totalmente a serviço do Brasil e escolhi essa terra, e um dia vou pedir a cidadania…(risos)

H: Seja muito bem-vinda!! Alexandra, o que significa a casa para você?

AL: Para mim o lar é um “cocun” de acolhimento, de recolhimento, onde você pode andar pelada, vestida, andar à vontade, baixar as máscaras. Para mim o lar, a casa é um lugar sagrado. Acho muito importante a casa ter um estilo. Morei em vários lugares na vida. Quando era pequena morava nos fundos da livraria da minha mãe, em um espaço muito pequeno, sujo e mal decorado, tinha um banho turco e colocávamos uma madeira em cima para tomar banho. Eu estudava em um internato católico particular, um colégio de freiras, e no final de semana eu voltava para a casa da minha mãe, que não era uma casa, era um depósito de livros, e morávamos nesse espaço, que só tinha um quarto. Eu dormia com minha mãe e meu padrasto e meus irmãos quando eles vinham passar o final de semana. Uma vez uma colega de internato, com quem eu pegava carona na volta para casa no fim de semana e que era multimilionária, me pediu para usar o banheiro. Foi um dos maiores traumas da minha vida, de não oferecer o meu banheiro para alguém. Então acho muito bom, caso você não tenha muito dinheiro, observar, talvez você não vá comprar as coisas da CASA VOGUE, mas pegar dicas de coisas parecidas e fazer do seu jeito. E quando você acorda ou quando volta do trabalho você fica feliz de estar olhando cada detalhe, sabe? Se sentir bem em casa é importante e eu acho que a estética e a aparência são muito mais importantes do que achamos, são 80%. Quando você chega perto de mim,  80% é sua aparência, já vou te colocar em uma caixinha, e você também… 20% vai ser a nossa conversa. Mas o que vai realmente ficar é como minha aparência fez você se sentir, então essa troca é muito importante, quando as pessoas falam que o vestir, a moda, é superficial. Seja superficial (risos) porque é a primeira coisa (risos) que todos vão ver. Nas minhas palestras, eu mostro curriculums clássicos e outros com design, infográficos. Quanto vai custar fazer o seu curriculum dessa forma? Isso vai mudar sua vida, porque vai ser totalmente diferente dos demais. Com um curriculum desses você quer conhecer a pessoa, você vai querer que essa pessoa faça parte da sua equipe. Então é isso, como saber se colocar na sociedade, como se apresentar. A pessoa vai querer te entrevistar se ele recebe só esses CV clássicos, chatos? (risos) É isso, saber se posicionar na sociedade sempre dando um upgrade. Hoje através dos tutoriais, da internet, podemos ir atrás dos nossos sonhos de maneira muito fácil, precisamos ser espertas aos signos do universo também porque o universo nos dá o que temos a coragem de verbalizar que queremos. Primeiro precisamos nos autorizar a sonhar…

H: Você pode dar uma dica para os leitores do blog, de São Paulo, Paris ou França?

AL: Deixa-me pensar pois não quero indicar um restaurante de trufas em Paris, pois isso é um pouco clichê… Acho que no Le Bon Marché tem lugares onde se pode experimentar o melhor do melhor da gastronomia. Não, vou indicar um curso do Escoffier no Ritz. Custa 65 euros por pessoa. Durante uma tarde no Ritz você pode aprender a fazer um risoto de gambas (camarão) flambado com conhaque. Eu levo todo ano quinze brasileiras pra uma imersão em gestão de luxo. De manhã fazemos cursos com especialistas do mercado de luxo e à tarde visitas ao Atelier Hermes, Fundação Cartier. E fizemos um curso do Escoffier no Ritz, e foi incrível. É acessível, só que as pessoas não sabem que podem “tomar” uma aula de gastronomia no Ritz… É de uma narrativa tão poética poder estar lá e aprender a cozinhar com os melhores chefs e equipamentos do mundo dentro do lugar mais chique do mundo…

Alexandra Loras: http://alexandraloras.com/

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