A arte do designer Alexandre Wollner

“Capa de livro é uma ilustração. O design seria projetar o livro como objeto (…) Design é projeto. Design não é ilustração.” Além de grande frasista, culpa da sua personalidade crítica e franca, Alexandre Wollner é considerado um responsáveis pela formação da ideia moderna da profissão de designer gráfico no Brasil. Wollner nasceu em São Paulo em 1928, filho de imigrantes iugoslavos – o pai era dono de uma oficina de tipografia. Após estudar desenho, fez parte da primeira turma do curso de iniciação artística do Instituto de Arte Contemporânea do Masp (Museu de Arte de São Paulo), entre 1951 e 1953. Entre os professores, nomes como os arquitetos Pietro Maria Bardi, Lina Bo Bardi e Jacob Ruchti. Por seus trabalhos, ganhou o prêmio de jovem pintor revelação na 2ª edição da Bienal Internacional de São Paulo, em 1953. Até ali, os interesses de Wollner pendiam mais para as artes do que para o design propriamente. Um convite em 1953, no entanto, mudou sua cabeça. Indicado pelo amigo pintor e designer Geraldo de Barros, Wollner viajou para a Alemanha, compondo a turma de estreia da Escola Superior da Forma (HfG), em Ulm. Fundada pelo renomado designer Max Bill, a faculdade ganhou notoriedade por buscar ser uma espécie de continuação da Bauhaus, escola alemã que revolucionou o design no início do século XX. “A Escola de Ulm era uma ‘meca’, um centro de formação mundial muito importante, com muita repercussão na América Latina. Wollner foi uma das vozes que trouxe as ideias da Ulm para cá”, disse Ethel Leon, jornalista, professora e autora de livros como “Design brasileiro: quem fez, quem faz” (2005) e “Memórias do design brasileiro” (2009). Formada na sequência do fim da II Guerra Mundial, da qual a Alemanha saiu derrotada, a escola de Ulm se alinhava ao pensamento da época, ligado a uma nova onda de industrialização e desenvolvimento tecnológico. Em Ulm, o currículo contava com doses altas de ensino científico. O designer se afasta das belas-artes, da manualidade, das artes e ofícios, e passa a pensar seu trabalho de maneira condizente ao apreço técnico e à industrialização avançada do pós-guerra. Com essa mentalidade, Wollner volta para o Brasil e funda em 1958, com Ruben Martins e Geraldo de Barros, o escritório de design “forminform”. Nele, o grupo de designers coloca em prática a abordagem mais técnico-científica do design e a imprime em trabalhos de criação de marcas, publicidade e projetos gráficos para jornais. Dessa época, são conhecidos os trabalhos de identidade para empresas como a Coqueiro e suas latas de sardinha, e Elevadores Atlas. “Na época, o Brasil vivia a construção de Brasília e a indústria se desenvolvia. As empresas nacionais buscavam também ter uma representação moderna e, para isso, muitas recorriam ao design gráfico. Foi aí que Wollner montou a base de clientes dele”, diz Leon. “Ele voltou de Ulm com uma convicção muito forte do que ele queria fazer por aqui. Ele não entendia o designer gráfico como algo efêmero, fútil. Para ele, tinha de ser algo perene, dotado de singularidade técnica. Por isso o Wollner é moderno.” Em 1962, Alexandre Wollner e o designer alemão Karl Heinz Bergmiller, seu colega de Ulm, fundam a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), no Rio de Janeiro. Com o fundamento apregoado pela Escola de Ulm, a ESDI foi símbolo de modernidade e exemplo para a profissionalização para o designer no Brasil. Em 1975, a escola foi incorporada à Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). “Num país periférico como o nosso, isso teve um significado muito importante. Ele lutou para dar dignidade ao design e ao designer gráfico. Foi um cara que batalhou muito pela formação”, diz Leon. Nesse sentido, a crítica exercia um papel fundamental na sua visão. Wollner defendia a liberdade de se poder criticar trabalhos e projetos alheios, em nome da atividade profissional. “Ele nunca perdoou, nunca bateu no ombro de ninguém, nunca teve uma postura típica brasileira de que alguém ‘é bom porque é meu amigo’. Ele ia muito a debate, e quando as pessoas falavam ele rebatia sem dó”, lembra Leon para o NEXO Jornal. “Não só a obra dele é muito importante como parâmetro construtivo, mas também a prática dele em relação ao próprio meio profissional.” Entre os alvos de suas críticas, estão o arquiteto Oscar Niemeyer e o logo da Copa do Mundo de 2014. Sobre o primeiro, embarcando na fala do seu mestre Max Bill sobre o brasileiro – que, para ele, não fazia arquitetura, mas escultura –, Wollner disse: “As obras de Niemeyer viraram ruínas modernas, por que ele só faz croquis e manda os outros desenharem, não acompanha, não faz nada”. Quanto ao logo da Copa, foi mais breve: “É uma porcaria!”. “Olha bem para o desenho: é uma cara com a mão no rosto dizendo ‘que vergonha’. Sabe quando você fala ‘que vergonha’ e põe a mão no rosto?”. Embora tenha passado toda sua vida profissional defendendo o apreço ao técnico, geométrico, lógico e funcional, Wollner se destacava por ser dono de uma espécie de “espírito sensível”, opina Leon. Wollner defendia que todo o trabalho dele era resultado desse esforço programado, cartesiano mesmo. Ele fazia uma defesa extremamente convencida e convincente sempre. Mas tinha algo ali de um espírito sensível que era só dele”, diz a jornalista. Em 2013, mostras em Frankfurt, na Alemanha, e em São Paulo celebraram os 60 anos do seu trabalho. Sobre Wollner, há um livro e uma entrevista documentada em vídeo pelo designer André Stolarski pela Cosac Naify chamados, ambos, “Alexandre Wollner e a Formação do Design Moderno”. Alexandre Wollner morreu em abril, em São Paulo, aos 89 anos.

ONDE ENCONTRAR: http://ciclopontodevista.blogspot.com/2014/06/alexandre-wollner-e-formacao-do-design.html; LIVROS: https://www.amazon.com.br/Alexandre-Wollner-Forma%C3%A7%C3%A3o-Design-Moderno/dp/8575034480 e https://www.travessa.com.br/alex-wollner-brasil-design-visual/artigo/ef85ef28-fb99-4c20-a1f7-6a9bb7013e15?pcd=041&gclid=EAIaIQobChMImJeRmfSs3QIVlYaRCh2YOwNyEAQYAiABEgIiOfD_BwE

via: Nexo Jornal: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/05/04/Quem-foi-Alexandre-Wollner-%E2%80%98pai%E2%80%99-da-modernidade-no-design-brasileiro

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