Jorge Salomão em entrevista exclusiva para Hardecor II

Jorge Salomão em entrevista exclusiva para Hardecor, abre seu imenso coração e nos brinda com amor e belas palavras. Artista multicultural, Salomão é ator, diretor, agitador cultural e poeta de muitos talentos. Música, capas de disco e de livros, teatro e encontros interessantes fazem deste carioca nascido em Jequié, na Bahia, um ser humano ímpar e inspirador, além de ótima companhia. Ao lado do irmão Waly Salomão, contribuiu muito para a contracultura brasileira, e amigo dos mais inteligentes artistas do futuro, presente e passado, Jorge percebeu e trouxe para a sua vida aquilo que realmente importa e tem valor. O riso fácil, a generosidade, alegria e amor. Leia, antes de prosseguir, a primeira parte desta deliciosa entrevista, aqui. Na próxima segunda, a terceira e última parte. Não perca! 

O poeta Jorge Salomão em pose exclusiva para Hardecor.

O poeta Jorge Salomão em pose exclusiva para Hardecor.

 

Hardecor:  Como você descreveria o panorama da arte no Brasil hoje e quais são as principais diferenças entre o que acontece hoje na arte no Brasil e o que acontecia nos anos 1970, 1980?

Jorge Salomão: Na verdade acho que tudo é um processo evolutivo, esse é o termo. Não é porque tivemos algumas conquistas brilhantes há um tempo atrás, que a gente vá negar um monte de coisa agora. Querer anular o presente porque o passado foi vibrante, significa anular a vida. Eu acho que com todas as dificuldades e com toda a porcariada que a gente vê o tempo todo, não podemos barrar a ideia do presente.

H: O que a gente percebe é que no passado também existia muita coisa ruim, mas essas coisas não ficaram, porque o ruim nunca fica. Depois de 100 anos a gente só vai lembrar das coisas legais, as coisas que não são legais desapareceram. Você acha que hoje tem muito mais coisa ruim do que tinha nos anos 1970?

JS: Olha, temos dois lados. Os avanços tecnológicos foram maravilhosos, isso é inegável. Você vê todo mundo na rua falando no celular, mandando mensagem, isso é uma coisa extraordinária que há 20 anos você não via, e há 10 anos estava começando, mas era tudo muito caro. Então dizer que as coisas do presente não são interessantes, acho um desrespeito com o viver presentemente. Claro que a idiotice ganhou mais corpo, bastante, a arrogância ganhou mais corpo e o conservadorismo está ganhando bastante corpo, mas ninguém vai tirar o foi conquistado, voltar pra trás. As conquistas que as mulheres tiveram dos anos 1960 pra cá,  como é possível barrar isso? Como uma Câmara de Deputados pode voltar à questão do abordo sem perguntar a uma mulher sobre essa questão? As questões sociais ficaram muito confusas, principalmente nesse ano que passou, o desrespeito a muitas coisas e dogmatismos pesados, essa coisa de bancadas religiosas. Mas eu creio, torço e acredito piamente que o processo evolutivo ninguém conseguirá deter. Na cultura tem coisas muito confusas, a mídia formal está despencando, mas outras estão aparecendo, como por exemplo os blogs. Os cadernos culturais, que há duas décadas eram formadores de opinião, viraram pastelaria. Porque o século XX, veio vindo de um jeito bem doido. Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial e depois a explosão dos anos 1960, que foi muito bacana. Os novos comportamentos,  as novas percepções, Beatles, Stones. O que é de valor ficará, como toda história, como toda a vida. Eu fico lendo coisas de Marcel Duchamp, que viveu entre duas guerras… eu era viciado no Duchamp, ia em todas as casas que ele morou em Nova York, na rua 14, na rua 10, ficava olhando a porta, estudava. E o Duchamp já famoso dava aula de francês em Nova York, não tinha nenhum tostão, vivia sempre com uns casacos vagabundérrimos, fumando charutos, e trabalhou uma revolução de linguagem, uma coisa tão forte e tão bacana. Então quando você olha o presente, vê como certas coisas são tão vagabundas. Por exemplo, os garotos xingando o Chico na rua. O Chico Buarque é imbatível, tem uma obra linda. “Meu Deus, garoto, você é um merda”. Quer dizer, um menino com bastante dinheiro, mas despreparado. Então tem certas coisas que ainda estão difíceis da gente delinear. Eu gosto de trabalhar e torço para que essas coisas sempre sigam a veia evolutiva sanguínea, porque isso é inevitável. Como é que se conquistou tanta coisa e depois você vai querer cortar essas coisas? Isso não existe, que existe, existe, mas o tempo é o senhor de tudo.

H: Quais foram os artistas que, em sua opinião, foram importantes para criação uma identidade genuinamente brasileira na arte?

JS: Olha tem tanta gente, eu acho que na literatura Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos nomes. Na musica tanta coisa boa, Caymmi, a bossa nova, o Tom Jobim que foi um gênio, João Gilberto, e todos os nomes antigos da música brasileira, o samba canção. O teatro brasileiro, Jorge de Andrade, o Teatro Oficina. Na pintura Portinari, Volpi, Djanira, Di Cavalcante, todos vem formando uma coisa bonita de Brasil. Hoje você vê artistas mais novos surgindo, como o Gustavo (Gustavo von Ha), e muita gente bacana. O Leonilson que faleceu cedo e tem um trabalho muito bonito. Hélio Oiticica, Ligia Clark, Ligia Pape, que  tive a honra de ter como amigos. A Lígia Pape fez a capa do meu segundo livro “O olho do tempo”.  Eu dizia que ela parecia a Elizabeth Taylor, ela andava toda maquiada, toda bonita. Um dia bati na casa dela, que era muito minha amiga. “Lígia meu amor”, eu disse, “a editora não tem dinheiro, preciso de uma capa PB para meu novo livro, e ela: “Eu vou fazer”. E fez uma capa linda com uns pontinhos. A Lígia Clark era uma mulher mais assim, requintada, muito educada, muito fina, sempre procurando experimentar coisas bacanas, muito sensível, etc. O Hélio Oiticica, uma figura fundamental nas minhas coisas e do Waly, porque o Hélio nos acolheu em uma época muito difícil, em 1969.  A gente não tinha lugar onde morar, não tinha dinheiro, não tinha nada, e o Hélio veio de Londres e nós fomos morar na casa da família dele. São coisas assim que você vai pensando e que vão te formando. Ao mesmo tempo o Hélio admirava tudo o que a gente fazia, dava força.

H: Como foram as experiências nessa época?

JS: Era uma época muito difícil, nós éramos estudantes, jovens são cheios de ímpeto, e a gente queria fazer política estudantil, panfletos e coisas e na época era todo mundo preso, etc e tal. Tinha começado aquela fase tensa, de tortura e tudo. O Jorge Amado e a Zélia, muito carinhosos, porque eu era amigo dos filhos deles, da Paloma e do João, davam aqueles conselhos amorosos “vocês tomem cuidado, está tudo muito violento”. Mas nunca era uma coisa repressora, era um carinho, como você faz com seus filhos, como eu faço com o João meu filho, com a mulher dele. Com os amigos deles, que me adoram, me ligam de São Paulo “Pô Jorge, eu quero te dizer uma coisa: te adoro!” E eu digo “Ah, Leo, peraí, bebeu foi?” Ele morre de rir. “Não Jorge, eu “tava” aqui pensando que às vezes você fala umas coisas que são tão boas”. Não é bom isso? Atualmente existe muita violência, tanto ódio, tanto tudo, mas eu acho que tudo isso vai se derreter igual a um sorvete ao sol. A gente tem tanta coisa bacana, volta aquela parte que eu falei, nossa formação não é uma formação de estupidez, se o presente está gerando algumas coisas de estupidez, às vezes eu acho que nossa formação é uma formação ligada com a cordialidade sabe? Que já falava o Sergio Buarque, Darci Ribeiro, enfim, eu aposto, tenho muita esperança no mundo e no Brasil, sinceramente.

H: Eu acredito muito no amor.

JS: Eu também, acho que o amor é fundamental, estou sempre falando isso. Perto da minha casa tem um bar, e tem uma moça que trabalha lá, ela é uma senhora, e morre de rir, porque eu digo: “você tá linda hoje, meu Deus, você é uma atriz de cinema”.  Sabe, isso é tão bom, ela diz “Jorge, você sempre tem umas coisas assim que levantam o astral”!

H: O que pretende Jorge Salomão?

J: Essa é uma boa pergunta. O que pretende Jorge Salomão? Na verdade, todos temos sonhos, grandes e bonitos, sem sonhos a gente não conquista nada, mas sonhos maiores assim, de ver o mundo melhor, etc e tal, é um esforço para o qual você trabalha diariamente, o tempo todo, não é? Sem esperar resultados imediatos, porque se você for olhar toda a densidade das coisas, você não da um passo na sua vida. Eu acredito no amor, na fraternidade, enfim, em melhores dias, por incrível que pareça. Se a gente não acreditar em melhores dias a vida fica muito ruim. Mas eu acoplo isso muito ao fazer, por isso me chamam de poeta. Poesia vem do grego, poesis que é o fazer. Não tenho brecha na minha vida, “tô” sempre fazendo alguma coisa, sempre. Seja fazer um sorvete que nunca mais fiz, ou pintando um pedaço da casa, ou mudando as coisas de lugar. Então exercer a liberdade é um dado tão importante, porque você está fundamentalmente exercitando a liberdade para o outro também. A liberdade não é estanque, só sua, você também passa alguma coisa pro outro. Então é isso, eu estou sempre fazendo alguma coisa, eu não sinto buraco na minha, “ah eu não sei o que fazer, eu estou entediado, triste”, eu acordo já antenado. Eu medito. Meditação não é religião, mas a concentração da sua força, do seu respirar, faço 5 minutos, 10 , 15, faço 1 minuto, entende? Se eu tenho uma fruta, só existe aquela fruta, eu não vou ficar querendo criar castelos de areia, entende? E eu acho que o outro é muito importante, isso é um pensamento existencialista, ninguém é feliz sozinho, você não depende, você espelha, espalha suas coisas e as recebe de volta. Então eu misturo muitas informações o tempo todo e eu gosto disso, eu gosto de misturar informações e filtrá-las de um jeito luminoso que renda mais coisa, sabe?

H: Jorge, o que prende seu olhar?

JS: Olha, meu olhar não se prende a nada. Tem um poema do Fernando Pessoa que diz: “meu olhar é como um girassol”. O olhar é a coisa mais bonita do ser humano. O olho espelha a alma. Eu acho que o olhar tem que ser livre, o olhar sobre seus desejos, sobre suas qualidades, sobre o seu comportamento. Claro que você não é um anjinho que comprou umas asinhas no Saara (lugar de comércio popular no Rio de Janeiro, como a 25 de março em SP) e botou.  Se você anda no meio de porcos, ainda assim isso não pode ferir o teu jeito, o teu olhar, o teu ser, entende? O olhar tem que ser mais livre possível, porque o que é a vida? A vida é um campo de possibilidades, a gente tem um corpo, tem saúde, tem fluxos, tem uma dor aqui, ninguém é perfeito, você um dia acorda, você dormiu lindamente e você acorda no verão com torcicolo, você diz “puxa”. O negócio é sempre não se culpar de coisas, você trabalhar transcendências, porque a culpa é um dado violentíssimo. Uma das coisas que mais me chocava quando vim morar no Rio ainda garoto, é que todo mundo que eu conhecia fazia análise o tempo todo e eu dizia: “mas gente, vocês nunca ficam bons?” Tenho amigos que até hoje, 25 anos depois, fazem análise. Eu fui quando me separei da Sonia, fiquei deitado naquele sofá com o psicanalista, que é até famoso aqui no Rio, nem vou dizer o nome, ele com aquela barba, aquele homem me olhando e eu comecei a falar umas coisas e ele marcou a seguinte e eu nunca mais voltei, isso há anos atrás. Eu achei que eu não tinha nada a ver com aquele universo, na verdade os dadaístas falam isso, que a psicanálise sistematiza um controle motor burguês e é verdade. Tem gente que parece que não ter a capacidade de vivenciar e lutar pelos seus valores. Isso tem que ser um dado forte na vida da gente, a gente aprender a se conhecer, conhecendo o mundo também. Eu acho que tudo é valor, não valor financeiro, os valores são outros, são valores maiores, de felicidade, de astral, de bondade, de ferocidade às vezes. O que se vê hoje? Socialmente, é a morte do desejo, as pessoas parecem que viraram umas latas, você vai numa festa, aí você tá legal, cumprimenta um, cumprimenta outro, toma um drink, as pessoas viraram meio estanques assim.

H: Você acha que hoje as pessoas têm medo de errar? Medo de falar uma coisa e ser cafona, medo de falar uma coisa e ser tachado.

JS: Porque você não pode errar? É bacana você ter a capacidade de conquistar esse poder da compreensão, isso é uma coisa muito boa, porque o que aconteceu no final dos anos 1960, com essa “acoplação” toda dos conhecimentos orientais na cultura mais densa ocidental, eu acho que foi uma mistura muito boa, que deu amplitudes pra gente.

H: Jorge, quais são as características essenciais para um bom artista?

JS: Olha, fui diretor de teatro, fiz dois grandes espetáculos na Bahia, ganhei vários prêmios. Fiz “O macaco da vizinha” que era uma situação bem primária, bem romântica, e ganhei todos os prêmios. No ano seguinte, fui contratado por uma atriz baiana para dirigir “A boa alma de Setsuan” de Bertold Brecht no teatro Castro Alves com quase 20 atores, que por pouco não me enlouqueceram. Fiz um espetáculo belíssimo, botei Stones, Beatles, a parábola do Brecht, essas contradições todas. Eu fiz um espetáculo muito bonito, que foi muito falado. O crítico do Jornal do Brasil na época, disse poucos dias depois: “Um belo Brecht, dirigido por um jovem e talentoso diretor”. Depois eu fiz vários shows e um espetáculo que me deu muita alegria, foi “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, que virou um grande sucesso no Rio, em 1972. O roteiro era meu e de Capinan (José Carlos Capinan). Fiz a direção e foi muito bonito, fez muito sucesso. Minhas experiências recentes como ator são muito engraçadas. Fiz Perigo Negro, do Rogério Sganzerla. O ator principal do filme era o Antônio Abujamra, que sempre tive num patamar maravilhoso como ator, um homem boníssimo, maravilhoso e tudo. E tinha uma cena que eu nunca ri tanto na minha vida, eu estava de paletó, a câmera estava aqui, eu andava assim, (faz a cena), Rogério dizia “luz, câmera, ação”, e eu só andava assim num corredor e a câmera me seguia no trilho e o Abujamra sentado e quando eu parava ele dizia: “Fantástico, absoluto”! Eu ria tanto, porque ele falava numa seriedade tão bonita, sabe? Então o que eu acho que o ator tem que trabalhar essa coisa do tempo, da energia, o respiratório para inflexionar nas frases assim, as sentenças de um jeito muito forte, porque o ator é o atleta do coração, ele trabalha essas energias yin e yang do impulso. O trabalho do ator é muito importante, ele trabalha essa coisa da força interior, sabe? Da força interior dele. Não algo estanque, uma coisa emotiva, uma coisa antiga, métodos antigos, como Stanislavski que queria que a pessoa sofresse a tal ponto que aquele sofrimento derrotava, não. Pode-se trabalhar uma coisa bem bonita.

PS: Na próxima segunda, mais um capítulo. Fique ligado!!

Foto: Hardecor Blog

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