Jorge Salomão em entrevista exclusiva para Hardecor I

Jorge Salomão é uma figura encantadora, um homem extremamente amoroso e carinhoso, e muito sábio. Usa o tempo para se divertir e espalhar amor. Com trajetória ímpar, o carioca, baiano de Jequié, dá um show na entrevista exclusiva que concedeu à Hardecor no Rio de Janeiro, onde mora. No primeiro contato, passei o nome do blog, que Salomão entendeu “Hardcore”, um site sobre surf. Falou aos amigos que achou muito curioso ter sido convidado para uma entrevista, justo ele que só nada “cachorrinho”! Rimos muito quando Salomão chegou e desfizemos o equívoco. Jorge é poeta de muitos talentos. Música, capas de disco e de livros, teatro e encontros interessantes, Salomão é craque em todos os quesitos. E então me apaixonei. Completamente. Difícil resistir à esse cara tão especial. A entrevista é bastante longa, e por esta razão será publicada em capítulos. Resolvi que não era possível suprimir partes, porque durante toda a conversa, Jorge destila luz e conhecimento sobre a vida, e não seria justo priva-los disso. Ao ler para editar, fiquei ansiosíssima para dividir com vocês, leitores. Boa leitura!

O poeta Jorge Salomão em pose exclusiva para Hardecor.

O poeta Jorge Salomão em pose exclusiva para Hardecor.

Hardecor: Quem é Jorge Salomão hoje?

Jorge Salomão: É uma boa pergunta essa, porque eu acho que o Jorge Salomão é um enigma para mim. Eu gosto de descobrir coisas o tempo todo, e na estrada da vida vão aparecendo tantas vias e caminhos, que você se surpreende com o espetáculo disso tudo. Eu gosto de viver intensamente. Os anos também te dão a sabedoria, que valorizo muito. Eu sempre fui uma pessoa muito aberta, muito dada, muito alegre, participei de vários movimentos fortes, depois de me mudar para o Rio. Por exemplo, a contra cultura, experiência com algumas…(pode falar de droga?)

H: Pode, claro.

JS: Com algumas drogas que abriram a percepção. Eu sempre tratei as coisas por um lado poético, bonito, e a descoberta é o fenômeno mais bacana da vida. É você entender que ao abrir o olho, ao acordar, é uma outra coisa, não tem um tempo estanque. Então para mim a vida é movimento. Quem é Jorge Salomão é uma boa pergunta. Às vezes me divirto, saio de óculos escuros e alguém diz: Jorge Salomão? Eu digo: Não, você está me confundindo! Eu acho que é engraçado você brincar com certos códigos, brincar com humor, não com peso, dor. Tem um frescor muito interessante que você vai descobrindo com o tempo. Isso é uma herança muito boa que recebi dos meus pais. Meu pai chegou no Brasil criança, o pai dele morreu, e ele foi ser mascate. Era um homem afetuosíssimo, ele chorava às 06:00h da tarde ouvindo Ave Maria, chorava ouvindo: “barracão de zinco, sem telhado” ( Jorge Salmão canta). Ele achava o Brasil o país mais lindo por isso tudo, entende? E minha mãe também sempre nos ensinou coisas muito bacanas, como fraternidade, afeto, amor, coisas amplas, sem mesquinharia. Porque a gente não está vivendo em um mundo de rosas, a gente vai vendo situações muito próximas esdrúxulas, bem pesadas, mas você contrabalanceia com algum fluxo positivo. Eu mesmo sou o rei disso. Então o Jorge Salomão é alguém que aprendeu a lidar com essas coisas, com esse universo bacana.

H: Fale, por favor, um pouco sobre seus projetos.

JS: Eu tenho feito muito palco. Em Salvador dirigi vários espetáculos. Fiz capa de disco, fiz design, várias letras de músicas, enfim. Mas nos últimos anos eu voltei a me apresentar. Eu estava sem saber direito o que fazer e um dia andando no centro do Rio e uma senhora passa por mim e fala: Poeta? Eu falei: Não sou poeta, eu sou um malabarista! E fui andando e rindo e ela também. E no meio da noite eu acordo e “theinnn” e penso: “Meu Deus, essa frase é ótima. Não sou um poeta, sou um malabarista. Caiu a ficha. Isso às 02h00 da manhã. Eu adoro no meio da noite ter vibrações fortes, que anoto. Pensei: “gente, vou fazer esse espetáculo: eu não sou um poeta, sou um malabarista. Foi o que fiz. Estreei no Parque das Ruínas, sem dinheiro nenhum. Consegui com uma amiga um smoking lindo, uma cartola francesa a foi um sucesso, lotou. O teatro só tinha 100 lugares e voltei mais 02 ou 03 vezes em cartaz e as pessoas do Sesi foram assistir porque saiu no Globo, saiu em tudo quanto é lugar. Ah, eu sou um poeta, eu escrevo, eu brinco com as coisas e aparecem palavras que eu vou traduzindo, vou criando uma estradinha. Eu acho que eu gosto muito de conceituar, como se fosse um malabares mesmo, brincar com o efeito.  Fui convidado a levar o espetáculo para o Sesi do centro (no Rio). Foi um grande sucesso em um horário alternativo, as 12:30h, então aquelas senhoras todas iam com o lanchinho e gritavam lindo, gostoso, etc e tal e eu adoro brincadeira mesmo, e esquecia o texto porque ria. Quando acabou a temporada eles me propuseram fazer mais, e eu disse que precisava pensar. Fui para casa, pensei que coincidia com o centenário do Vinicius (de Moraes), e ninguém estava fazendo nada, e falei para o menino que estava dando uma “garibada” na direção: Vamos fazer uma homenagem ao Vinicius pelos 100 anos? Chamei uns atores e foi muito bom, também um grande sucesso. Aí pediram para eu fazer outro, fiz Manoel Bandeira, depois Tropicalismo Tropicália, que foi lindo, cheio de atores dançando, tinha depoimentos, tinha pedaços do “Terra em Transe” (filme de Glauber Rocha), essas coisas todas e depois virou um sarau e eu peguei muita tarimba de palco, de tempo, de falar. Mas, voltando à origem da pergunta, eu acho que a gente tem que trabalhar o mistério, esse fluxo de luz que nos é permitido enquanto vida, isso faz muito o meu perfil, mais libertário.

H: Como a arte entrou na sua vida?

JS: Olha, a arte faz parte da minha vida desde criança. Nós morávamos em uma casa bem grande, e na frente era a loja do meu pai. Meu pai era sírio, aos sábados ele fazia verdadeiros banquetes. Acordava cedo, fazia quibe, fazia tudo e quem chegava era bem recebido. Minha mãe era muito dada. Fomos criados ouvindo Radio Nacional, eu e o Waly (Waly Salomão, irmão de Jorge, morto em maio de 2003). O quintal de casa tinha muitas arvores e eu e Waly ficávamos nos galhos falando frases, porque antigamente nas farmácias eles davam uns almanaques com frases de Sócrates e Platão, e a gente pegava aquilo e já encenava, isso aos 09, 10 anos. “Porque as armas e os barões assinalados”, de Luis de Camões, e o povo que trabalhava lá em casa nos assistia. Meus pais eram pessoas muito abertas, nossa casa sempre foi muito democrática, era tudo meio tribal, os filhos dos empregados viviam ali com a gente e era tudo muito engraçado. Tinha umas senhoras que diziam para minha mãe: esses meninos não giram muito bem não! (risos) E minha mãe morria de rir. A gente pegava os lençóis e amarrava assim e ficava falando coisas, eu e o Waly, desde cedo. Lá em casa tinha uma mesa de jantar de madeira enorme, e resolvemos fazer com minhas irmãs, meus primos, um teatrinho. As meninas ajudavam, faziam as fantasias e eu e o Waly o texto. Aí você sobe na mesa, tinha até cortina, você sobe na mesa e cai, e minhas primas eram meio duras para cair, e a gente falava: Você cai mesmo, de verdade, como se fosse morta mesmo. A gente ria com essas situações, ao mesmo tempo a gente era apaixonado pela Radio Nacional porque na época não tinha televisão , então aqueles programas de auditório, muito ricos, com aquelas musicas, aquele repertório espetacular. Meus pais sempre puxaram a gente para a leitura. Aos 10 anos eu já havia lido vários romances nordestinos. Já estava começando a ler Jorge Amado, com os primeiros fluxos sexuais, já tinha lido José Lins do Rego, Graciliano (Ramos), essas coisas. A arte esteve sempre muito presente , sem máscaras, para a gente. Eu me sinto feliz por ter tido nossa família, da qual restam pouquíssimas pessoas. Meu irmão mais velho é um homem simpaticíssimo, amoroso, bacana. Tenho uma irmã aqui na Tijuca e mais dois irmãos na Bahia. Quando meu pai  foi embora, eu tinha 8 anos e o Waly 10, minha mãe segurou todas as pontas. O Waly foi dois anos antes de mim estudar em Salvador. Éramos 10 filhos, minha mãe segurou a “pemba”. Eu até conto isso no livro que estou escrevendo sobre o Waly. Não tinha nem estrada asfaltada de Jequié para Salvador . Primeiro o Waly foi, e mandava pelo correio que demorava 20 dias para chegar, programas de peças de teatro. “Jorge, vi tal coisa, tal filme.”  E aquilo começou a me fascinar, e eu torcia para que chegasse logo o tempo de eu ir para Salvador. A viagem demorava 12 horas. A gente saia as 06h:00 da manhã e chegava as 06:h00 da tarde. (Imita o barulho do ônibus – nhé nhé nhé.) E hoje se faz em 03 horas.

H: Quantos quilômetros? 200?

JS: Ah, eu acho que mais, uns 350, por aí. (Na verdade, são 366 km) E nós fomos aprendendo, vendo o mundo. No meio da estrada, em Milagres, o ônibus parava, aquele ônibus “cheque, cheque, cheque”, e a realidade brasileira era tão intensa . Eu me lembro muito bem que haviam uns garotos que corriam para cheirar o tanque de gasolina e começavam a cantar, porque não tinham dinheiro para comer. Tinha gente vendendo cobra, com cobra no pescoço, uma loucura tudo isso. E Salvador? Salvador era uma cidade imunda, pilhas de lixo, mas era um fascínio para quem era do interior, por causa do mar, do acesso ao novo e era ainda mais bonito do que hoje. Eu me lembro que cheguei em Salvador com o Waly e ele falou que eu tinha que ver um filme, “Rocco e seus irmãos”, do Visconti (Luchino Visconti). Eu fui assistir aquele filme forte, doido. Tenho até a copia em casa e de vez em quando assisto. Eu me lembro de estar sentado no Cine Capri, vendo aquilo, abrindo o olho, depois comentando com o Waly, então  esses choques, todos bonitos, que foram acontecendo na vida da gente são lembranças que penso que foram estados de graça. No meu primeiro dia de aula, senta uma menina do meu lado, era a Dedé que foi a primeira mulher do Caetano (Caetano Veloso). Ficamos íntimos.

H: O que é arte?

JS: A arte é um mistério, você fomenta, ela aparece. Se você não esta aberto para as novidades do mundo você envelhece tuas células, você envelhece teu ser. Eu Graças a Deus tenho esse espirito. Eu me dou com embaixador, com varredor de rua. Os varredores da minha rua sentem minha falta quando viajo e sempre convido para tomar um café. “Entra aí”. Aprendi isso muito com minha mãe, com meus pais, se a gente quebra certos dogmas, você começa a trabalhar limites.

H: Quais são as suas referências?

JS: Minha referência sempre foi, Valéria, e tem sido, muita informação e o jeito de trabalhar esta informação. Eu sempre li muito e sempre gostei de estudar. Eu agora estou revendo uns livros novos que quero lançar, que estavam parados, então estou sempre trabalhando. Quando eu fui para Nova York, eu já havia feito a “Navilouca”, a revista do Waly e do Torquato Neto e que hoje é estudo em Harvard como uma das maiores publicações da contracultura mundial. Eu tinha 22 anos, e o Waly dizia que eu tinha que estar na revista, e eu estou até na capa junto da Ligia Clark. Eu nessa idade tinha muitas liberdades, desejos , mas também tinha os limites e depois isso se ampliou de um jeito tão bonito. Porque em Nova York, além de trabalhar com esse monte de coisas, eu vi tudo o que foi possível. Eu tinha autógrafo do Andy Warhol e foto com ele, fui a exposição do Andy Warhol, conserto do John Cage. O Helio Oiticica morava lá e ficava indignado porque eu lia e via tudo. Absolutamente tudo. Trabalhava e me divertia. Cheguei a fazer mudanças com uns americanos louquíssimos. Vou te contar uma história. O dono era um americano que tinha três vezes a altura deste apartamento (que tem 03 metros de altura). Ele passava em casa as 7:00 da manhã e eles não sabiam a direção, eu era a bússola e eu era quem dirigia os trabalhos e indicava o que fazer primeiro, criava um roteiro. O dia que eu não ia eles não conseguiam fazer o trabalho. Eu ditava a ordem para embalar e carregar o caminhão. Eu ganhava U$ 150,00 dólares por dia, isso em 1979, 1980, era muito dinheiro. Aí eu saia para jantar com a Sonia (ex-mulher de Salomão), a gente ia ver Tina Turner no Roxy, Bob Dylan no Madison Square Garden, Police, Steve Wonder. Poder trabalhar e ter condições econômicas para fazer outras coisas, usufruir das melhores coisas. Pôxa, eu vi tudo na minha vida. Picasso, Matisse, Paul Cézanne, Rembrandt, Monet, tudo.  Na exposição do Picasso tinha fila imensa e eu pensava que tinha que rever, e revia. Qual foi mesmo a pergunta?

H: Quais são suas referências?

JS: Ah, tudo isso para mim são referências, o transitar por entre as coisas. Porque tem gente que divide o mundo. Eu acho que é bom a gente unir o mundo exterior com o interior, criar uma via. É o que eu tenho feito. E minha volta para o Brasil foi muito engraçada porque quando eu voltei eu estava de um jeito assim muito para cima, bacana. Anos morando em Nova York, pegava avião e ia para a Europa, viajava, ia para o Norte da África, vinha ao Brasil. Mas eu já estava cansado de morar lá, e voltei com a Sonia, o João nasceu (filho de Jorge), e depois me separei, e eu já não conhecia mais ninguém, já não tinha mais amigos, e comecei a nascer de novo. O Waly e o Antonio Cícero diziam para mim que eu falava cada coisa interessantíssima, porque você não faz letra de música? Eu dizia: Eu não, imagina uma frase que eu vou dizer, qual é a melodia que vai entrar nisso? E eles riam comigo, e ai eu voltei a me entusiasmar com a coisa, com certos detalhes, e comecei a trabalhar com produção para uma revista de fotografia e moda. A primeira matéria que eu fiz foi com os “Paralamas do Sucesso”. Fizemos umas fotos na praia de Ipanema, e o trabalho ficou muito legal. Nisso passa o Nico Rezende, músico que tocava com a Marina Lima, e diz: “Ô Salomão, vamos fazer uma música hoje? E eu: “Eu tô aqui trabalhando, ganhando um dinheirinho”, Nico: “Ah eu vou ali e volto, te pego, vamos lá pra casa.” Nisso ele voltou, eu estava terminando, fomos para um apartamento que ele tinha lá em  São Conrado. Dali a pouco ele apareceu com uma garrafa de whisky, acho que eram 06h:00 da tarde, tomei uma dosezinha e fiquei lá dedilhando o piano e comecei a escrever “Noite”, que ele deu para a Zizi Possi. Zizi gravou e estourou, bateu Roberto Carlos e ficou 35 semanas nas paradas de sucesso, eu já não aguentava mais ouvir aquela música [canta um pedaço da música], eu entrava no táxi e estava tocando, passava no botequim estava tocando, e então logo depois surge o Nico novamente: “Vamos lá em casa, vamos trabalhar, agora que está estourando Noite”, eu falei “Nico, não sei e tal”, e fui no outro dia mesmo, tomei uma dose de whisky e ele ficou lá falando com a ex-namorada dele, ex-mulher, não sei, brigando, aquelas coisas e eu fiquei escrevendo. Saiu Pseudo Blues. Marina gravou no disco Virgem, o Jornal do Brasil me posicionou entre os novos talentos de letristas. Fiz algumas canções, muitas com o Barão, com a Cássia Eller. Acho que se a gente tiver uma postura de não bloquear as coisas, as coisas vem. Tudo comigo acontece muito magicamente. Claro que tenho minhas aflições, tenho minhas contas pra pagar, tenho meus desesperos, que transformo em trabalho. É o que eu faço, eu confesso, sou dramático. 

H: Fale, por favor, sobre seu processo criativo.

JS: Eu trabalho 24h por dia, o tempo todo, eu estou aqui e minha cabeça está pensando, eu estou dormindo e cheio de papel e caneta do lado, estou sempre trabalhando, cantarolando, lavando uma camisa, vendo a paisagem da minha casa, conversando com uma pessoa, o que for, estou sempre acoplando um jeito criativo na jogada. Acho que a gente não pode perder tempo com nada. Sou de uma geração que passou por anos muito difíceis com a ditadura, eu fazia ciências sociais e filosofia, e fazia teatro em Salvador. Aos 18 anos de idade eu ganhei todos os prêmios de melhor direção, eu peguei um texto de Joaquim Manoel de Macedo e com uns colegas, Paloma Amado, filha de Jorge Amado, João Jorge, que era meu assistente de direção, e uma turma de Salvador, Mariozinho Cravo Neto, já falecido. Éramos uma turma e queríamos fazer política e arte. Na verdade eu sempre fiz um pouco de política, porque a gente sempre viu tantas desigualdades, tanta coisa, mas sem filiações partidárias, nem posturas horrorosas, arrogantes, sempre uma pitada solar. Jequié, onde nasci, é conhecida como cidade Sol. Valéria, eu adoro criança.  Tenho uns vizinhos lá em Santa Tereza e tem um garoto engraçadíssimo, e uma menina que morava no apartamento de cima, que sempre me visitava. Acordo muito cedo, tomo café, leio o jornal. Ela batia na porta, tinha 3 aninhos, e entrava e eu dizia para a Maria ficar a vontade. Ela empurrava as pilhas de livros e a mãe descia as escadas e me pedia desculpa, mas eu dizia “desculpa nada, eu estou aqui, Maria é uma companheira, ofereci biscoito pra ela, ela está arrumando minhas coisas e desarrumando tudo”. Eu adorava. Então essas pequenas minúcias, penso que são fatores humanamente tão largos, tão bons de conviver, trabalhar, interagir, que eu acho que tudo fornece elementos. O que deve ser decoração pra você? Um enigma também, você tem um cliente, o cliente às vezes tem vontades mas é bitolado, e aí você vai trabalhando os universos.

H: “Eu sempre falo que o meu papel é oferecer para o meu cliente coisas que ele nem sabe que quer.”

 JS: “Tá vendo, é exatamente isso, e a gente vai aprendendo tanta coisa, existe tanta coisa no mundo. Quer dizer, se tem um jeito que você pode passar por entre as estruturas, pra não ficar ferido, não ficar amargurado, talvez seja essa uma das razões… às vezes eu digo a idade que tenho e os outros dizem “eu não acredito” e eu digo “acredite sim, eu nunca tive vergonha de dizer minha idade, eu nasci em 1946, vou fazer 70 anos. Eu acho que você tem que descobrir certos jeitos, isso não é fórmula, isso é a tarimba, é  como se você soltasse bolinhas de sabão “o que são aquelas bolinhas?”, não são nada, mas às vezes podem ser tudo. Você procurando compromissos muito densos, não vai a muitos lugares, principalmente no mundo de hoje, que está se mostrando cada vez mais estúpido e ao mesmo tempo você, na sua condição, na minha condição, a gente só tem que espalhar coisas boas, espalhar luz. Quando você me fala que sua filha é atriz eu vou dizer “Que bacana, que bom”, isso é uma das tônicas, modéstia à parte, da minha personalidade, as pessoas me mostram às vezes um desenho… eu sinceramente não gosto muito quando chega um poeta junto de mim pra dizer chatices: “ah eu queria te ler um poema que eu fiz”, e vem com aquela baboseira…O Waly saía logo, eu ainda tenho uma certa paciência, boto o óculos escuro por cima desse, faço uma cena mas não gosto. Eu gosto mais de gente que não precisa mostrar nada procurando aprovação, não sei se é um limite da minha parte, mas me dá uma certa agonia, quando chega e fala “eu preciso muito te mostrar” e pega você, quer te segurar. A coisa que eu mais detesto é alguém querendo me segurar. Eu desde criança sou assim, minha mãe dizia que eu era neném, bebê, ela botava  a meia e eu tirava, eu não consigo usar meia nem nada disso. Então eu acho que a vida é muito reveladora. Tenho uma memória excelente de toda a minha estada. Tenho uma memória ótima. Outro dia mesmo eu contei pro Caetano uma história e ele morreu de rir e falou “Jorge, mas que memória a sua”.  Eu nunca me esqueço daquela mulher aos seus pés, depois dos Doces Bárbaros, estava tenso porque muitos amigos haviam sido presos e acabou o espetáculo e aquela mulher se jogou aos seus pés cantando “peixe, peixe, deixa eu te ver peixe”. Caetano disse “menino como você se lembra disso?”, “Me lembro porque achei um dramalhão tão incrível”, e ele riu. Eu acho que valores muito bacanas, é sempre bom a gente frizar para os jovens, são o amor, o companheirismo, fraternidade, conhecimento, informação. É tão bom a gente ser amplo. 

PS: Na próxima segunda, mais um capítulo. Fique ligado!!

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