Joana Cardozo, fotógrafa brasileira em Nova York

Joana mora e trabalha em Nova York, cidade que não é para principiantes. A ex-advogada nasceu e cresceu na zona oeste de São Paulo, e fez faculdade de Direito na PUC-SP, seguida por dez anos de trabalho na área empresarial, também em São Paulo. “Morei um ano em Londres e em 2013, fiz um curso de fotografia na Imã Foto Galeria em Pinheiros e foi aí que tudo começou”, explica ela, com economia de palavras, nada comum em advogados, ainda que não atuem! O negócio da doce Joana é mesmo olhar e registrar o que percebe através de uma narrativa bastante particular. O caminho das fotos óbvias e resultado idem está fora do ideal da fotógrafa paulistana/novaiorquina. Atualmente Joana desenvolve o que chama de Blueprint, um trabalho delicado e muito especial que ela explica gentilmente para os leitores de Hardecor em entrevista exclusiva. Veja as fotos no fim da matéria! Aqui, o site da fotógrafa: http://www.jpcardozo.com/

O Blueprint que Joana fez para si mesma e que deu origem à série.

O Blueprint que Joana fez para si mesma e que deu origem à série.

Hardecor: Por que morar em Nova York?

Joana Cardozo: Vim para Nova York em 2013 para trabalhar por um ano como advogada visitante em um escritório de advocacia de porte global. O escritório fica na Sixth Avenue, perto do Bryant Park, exatamente em frente ao International Center of Photography – ICP. Como já tinha iniciado um curso de fotografia no Brasil, queria continuar a estudar e me matriculei em um curso de street photography. Afinal, que lugar melhor que Nova York para fotografar pessoas na rua? Meu contrato com o escritório acabou e eu não estava pronta para deixar Nova York, então decidi me inscrever para o programa de um ano em estudos gerais em fotografia do ICP e fui aceita. Desde então, continuo aqui, agora trabalhando como artista visual e fotógrafa freelance.

H: Explique por favor, como chegou a essa concepção de Blueprints/apresentação das fotos? Seus primeiros projetos também tinham esse formato?

JC: A ideia para o primeiro Blueprint, que é um auto-retrato [Blueprint One, 2015 – o azul], surgiu em uma classe chamada Views from Home. Eu estava trabalhando com projeções e notei a sombra de um vaso de tulipas na parede que a luz do meu projetor formou e fotografei apenas a sombra. Comecei a pegar outros objetos do meu apartamento, que na época era no Lower East Side, colocando-os na frente do projetor e fotografava apenas as sombras. Na aula apresentei todos as sombras impressas separadamente. Na semana seguinte, apresentei tais sombras inseridas dentro da planta do meu apartamento. O Blueprint One estava criado. Em seguida, repeti o mesmo processo na casa do meu namorado e de uma amiga. Não parei desde então.

H: Seus fotografados se reconhecem nos Blueprints?

JC: Alguns retratados se reconhecem, outros nem tanto, mas até hoje ninguém ficou aborrecido comigo. Certa vez levei um amigo a uma festa na casa de uma outra amiga e ele, ao entrar no apartamento, de imediato falou surpreso: “Espera aí, ela é o Blueprint Quatro?” Tenho exposto os trabalhos em galerias e festivais de fotografia em versões impressas montadas em plexiglass ou impressas em alumínio.

H: Como é feita a escolha dos objetos quando você chega na casa de um cliente? Quem faz a seleção? Essa seleção é intuitiva?

JC: Tudo é muito intuitivo e depende das circunstâncias. As vezes estou sozinha na casa do retratado, então seleciono os objetos que entendo representar melhor aquela pessoa. No entanto, também seleciono objetos com os quais me identifico pessoalmente. Semana passada fotografei um artista visual/escultor em seu estúdio no Dumbo, Brooklyn. Como as peças eram delicadas e também pesadas, ele me ajudou na seleção. Foi um processo mais colaborativo.

H: Quem são os fotógrafos que influenciam seu trabalho?

JC: Adoro trabalhos com caráter cinematográficos, como o do nova iorquino Gregory Crewdson e no Brasil não posso deixar de mencionar o paulistano Mauricio Lima. Mas acredito que os Blueprints, por terem essa característica de colagem, sejam mais influenciados por Paper Cuts Outs de Matisse e também por Beatriz Milhazes.

H: Sua formação como advogada ajuda na profissão de fotógrafa?

JC: Ajuda muito. Acredito que qualquer experiência passada contribui nas nossas atividades presentes, ainda que aparentemente elas sejam não relacionadas, como direito e fotografia, por exemplo. Nunca perco prazos combinados com clientes ou para submissão de trabalhos a festivais e competições. Acho que organização e atenção a detalhes são habilidades adquiridas em meu trabalho como advogada.

H: Joana, conte para os leitores que outros trabalhos você faz como fotógrafa.

JC: Tenho trabalhado como co-curadora de uma exposição de fotografia que será apresentada na galeria do ICP nesse outono e também no festival de fotografia Photoville no Brooklyn. A exposição se chama “The Future Perfect” e contém trabalhos de 26 artistas que se formaram no ICP nos últimos cinco anos, dentre eles, há três brasileiros.

H: Como a brasilidade influencia seu olhar?

JC: Nunca pensei nisso e imagino que não seja consciente, mas acho que o gingado e o jeitinho brasileiro são latentes no meu trabalho, desde a forma de lidar com clientes e fotografados, até o resultado final das imagens. Cores, formas tropicais, calor humano e esse sentimento de que no final, tudo dará certo.

H: Dê, por favor, uma dica de Nova York para os leitores de Hardecor.

JC: Ah, não posso deixar de recomendar ver a exposição “The Future Perfect” na galeria do ICP na Sixth Avenue com o Bryant Park (1114 Avenue of the Americas), de 16 de setembro a 20 de novembro e também visitar o Photoville no Brooklyn Brigde Park de 21 a 25 de setembro. Ambos são gratuitos e adequados para todas as idades. No verão ou mesmo outono adoro passear pelo High Line que agora está terminado e tomar um café no Intelligentsia Coffee no High Line Hotel (180 10th Av. com a 20th St.). E para curtir um bom som ao vivo, recomendo a super-casualidade do 55 Bar no Greenwich Village.

 

ONDE ENCONTRAR: Imã Foto Galeria: http://www.imafotogaleria.com.br/site/index.php; International Center of Photography (ICP): https://www.icp.org/

6 Responses
    • Que bom que gostou, Silvia! Fico feliz, e tenho certeza de que a Joana também!
      Obrigada por prestigiar Hardecor.
      Beijo
      Valéria Coelho

  1. Adorei a entrevista! A Joana fotografou a nossa casa, é o Blueprint Seven. Sempre que vejo o trabalho, encontro alguma coisa nova. Gosto como cada cor representa um membro da família, além de uma parte diferente da casa, separando áreas comuns e ambientes pessoais. Também gostei muito da escolha dos objetos, que a Joana fez sozinha, e nos representa muito bem.
    Parabéns pelo reconhecimento, Joana. Ótima entrevistada Hardecor, Valéria!
    Beijos!

    • Mari querida,
      Fico feliz que tenha gostado da entrevista como gostou do trabalho da Joana!
      Ela é uma fofa e super talentosa.
      Obrigada por prestigiar Hardecor.
      Beijo
      Valéria

    • Oi Silvia
      Vou encaminhar este seu recado carinhoso para a Joana, que com certeza vai ficar bem feliz.
      Obrigada por prestigiar Hardecor.
      Beijo
      Valéria

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