A psicanalista Marion Minerbo em entrevista exclusiva

Decoração, colecionismo, super ego e auto estima são tópicos da entrevista

Marion Minerbo não concede entrevistas ao vivo, apenas por escrito. A justificativa é que é possível pensar com cuidado nas respostas, e as palavras de uma profissional do calibre dela realmente tem peso. Formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em 1980 e Doutora em Psicanálise pela Unifesp, é autora de “Neurose e não neurose” e “Transferência e contratransferência”, e de “Diálogos sobre a Clínica Psicanalítica”, e de dezenas de artigos publicados em revistas nacionais e internacionais. Marion desenvolve trabalhos e publica principalmente nas seguintes áreas: psicopatologia psicanalítica (teoria e clínica), processos de constituição psíquica no mundo contemporâneo e novos desafios para clínica psicanalítica atual . Com todo esse repertório, Marion pode nos explicar um pouco como funciona o relacionamento que estabelecemos com a casa, e o que ela significa do ponto de vista psicanalítico. Minha formação original é em Psicologia e tenho grande interesse no assunto. Marion, conceituadíssima na área, foi super gentil em conceder a entrevista, que divido agora com vocês, leitores de Hardecor! 

A psicanalista Marion Minerbo.

A psicanalista Marion Minerbo.

 

Hardecor: O que significa a casa do ponto de vista psicanalítico?

Marion Minerbo: Um espaço que contenha referências relativamente estáveis sobre nós. A  estabilidade das referências – móveis, objetos, estilo, decoração – é fundamental para a confirmação de nossa identidade. Tudo que escolhemos nos conta quem somos.

H: Como podemos entender os nômades ou pessoas que vivem na rua por opção?

MM: Talvez para essas pessoas as referências não sejam fonte de estabilidade, mas de aprisionamento.

H: Dizem que arrumar armários/gavetas está relacionado à elaboração de conteúdos internos. Essa afirmação tem fundamento?

MM: Não tenho certeza que a arrumação permite a elaboração no sentido psicanalítico do termo, que é um processo complexo. Mas com certeza, para certas pessoas, é apaziguador ver as coisas em ordem. A angústia da “bagunça dentro” pode ser atenuada pela “ordem fora”.

H: Em alguns países, como Holanda e Japão, a decoração tem poucos adornos e cores. Além do aspecto cultural, como essas diferentes escolhas de estilo podem ser entendidas?

MM: Talvez os poucos adornos e cores tenham correspondência com a manifestação muito mais discreta dos afetos e emoções que notamos nessas culturas. As pessoas são mais reservadas. Não há abraços efusivos, as pessoas não se tocam, há uma distância a ser respeitada. A estética doméstica reflete a estética existencial: “menos é mais”.

H: É possível perceber/entender a personalidade de alguém pela decoração de sua casa?

MM: Totalmente! Mesmo lugares claramente decorados por decoradores – você poderia pensar que a personalidade que aparece é a do decorador – indicam que a pessoa não se sente suficientemente autorizada, ou segura, para fazer do seu jeito. Medo de errar é, sem dúvida, um traço de personalidade.

H: O acúmulo de objetos pode ser entendido como carência? Fale um pouco sobre o colecionismo, por favor.

MM: O acúmulo de objetos costuma ser visto pela psicanálise como um traço do caráter anal, retentivo – tem a ver com reter as fezes, que para as crianças pequenas são uma produção preciosa do seu corpo. Pessoas que não conseguem jogar nada fora têm medo de ficar despossuídas de algo precioso. Fica difícil discriminar o que serve, do que não serve mais.

H: Algumas pessoas se vestem adequadamente/bem, tem carros em ordem, mas a casa onde vivem é desorganizada, com mobiliário desgastado, enfim, a morada não condiz com o estilo de vida. Como a psicanálise explica essa falta de conexão? (ou ainda pessoas que tem a casa aparentemente em ordem, mas na hora em que você abre o guarda roupa ou uma gaveta, está tudo embolado, amassado e em total desordem).

MM: O narcisismo de cada um, o amor que temos ao próprio eu, pode estar alocado em coisas muito diferentes. Para um, o importante em relação à própria imagem – aquilo que sustenta sua autoestima – pode ser o carro; para outro, a casa. Para um, a sala; para outro, o armário. Há também a possibilidade dessa falta de conexão estar relacionada a uma cisão: todos temos aspectos mais organizados, mais saudáveis, mais integrados, e outros mais “loucos”.

H: A organização e/ou desorganização do ambiente pode ser o reflexo do mundo interno?

MM: A casa é sempre o reflexo do mundo interno. Mas a organização do ambiente não significa necessariamente um mundo interno organizado. Por exemplo, alguém pode se sentir obrigado a ter tudo muito arrumadinho porque tem medo de ser criticado e atacado por uma estrutura do mundo interno chamada superego. Alguém mais “seguro” internamente pode não se incomodar com um pouco  de bagunça.

H: A fantasia infantil feminina para a vida adulta ainda é uma casa/vida perfeita com marido e filhos correndo pelo quintal?

MM: Acho que não dá para generalizar. De modo geral, a casa é muito importante para as mulheres, com ou sem marido e filhos.

H: Porque algumas pessoas não conseguem receber em casa, apesar de serem sociáveis, e outras, mais tímidas, apreciam receber, são bons anfitriões?

MM: Receber em casa é se expor. Quando alguém não tem boa opinião de si mesmo, pode ter medo de se expor à crítica alheia. Certas pessoas tem medo de “estranhos”, mesmo quando são conhecidos. Não conseguem sentir que estão recebendo amigos; ao contrário, sentem que estão sendo “invadidos por inimigos”. A casa é um bunker que serve para proteger sua privacidade.

H: Em sua experiência, é possível afirmar que alguns povos se relacionam com a casa de maneira mais afetiva ou isso é igual no mundo todo?

MM: Acho que em todos os povos a casa é uma referência importante, em geral um lugar amado em que podemos relaxar.

H: Como é a casa de Marion Minerbo?

MM: Minha casa é pouco convencional, tanto do ponto de vista da arquitetura, quanto dos objetos e da decoração. Comprei uma casa caindo aos pedaços porque queria morar na mesma rua do meu consultório. Para a reforma, contratei uns garotos recém-formados, amigos da minha filha, porque o TCC deles foi tão incrível que a orientadora chorou de emoção. Não há divisórias entre os ambientes no andar de baixo. O estilo, segundo minha filha, é um “rústico chique”. Os móveis estão dispostos de forma assimétrica, segundo as diagonais do ambiente. Eu e meu marido escolhemos tudo o que existe, e também decidimos como dispor tudo. Curtimos muito isso juntos. Nem brigamos!

H: Dê, por favor, uma dica para os leitores de Hardecor.

MM: Sugiro dois livros de uma escritora italiana, Elena  Ferrante. Um deles se chama “Minha amiga genial”. O outro “O novo sobrenome”. Adorei!

 

7 Responses
    • Oi Maria Angela
      Ela é mesmo uma querida. Fiquei muito feliz com a entrevista, pois ela é bem clara nas colocações e bastante simpática e acessível.
      Obrigada pelo elogio!
      Beijo grande
      Valeria Coelho

    • Que bom que gostou!! Eu fiquei encantada com a habilidade da Marion para comunicar conceitos tão complexos, e com a disponibilidade/generosidade em conceder tão prontamente a entrevista para Hardecor!
      Abraço
      Valéria Coelho

    • Oi Sonia
      Esse é mesmo um assunto bem bacana, que me interessa muito, como psicóloga de formação e decoradora por opção.
      Espero que tenha sucesso na sua pesquisa e obrigada pelo elogio!
      Abraço
      Valeria Coelho

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